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Porque A Arte Somos Nós

O cinema é um testemunho da sociedade que o produziu e, portanto, uma fonte documental para a histórica por excelência, o que nos permite afirmar que todo o filme é passível de ser utilizado enquanto documento (Penafria, 2004). O ritmo industrial, a contabilidade e a aceleração tecnológica, que caracteriza a grande massa de produtos do cinema de Hollywood, não têm muito tempo para uma depuração sensível e categórica da criação artística.

Sabemos que na indústria dos sonhos, é estrategicamente elaborado um reportório persuasivo de informações, emoções e sentimentos, prontos a serem consumidos pelas massas. Assim, desde as aventuras de “Flash Gordon” e “Tarzan“, até o ciclo interminável de sub-produtos como “Super-Homem“, “Batman“, “Matrix“, ou “A Guerra das Estrelas“, passamos a ter esquemas prontos e fórmulas de sucesso que “satisfazem” o fantástico sonho de consumo das massas (Paiva, 2006).

O próprio cinema mostra-nos as possibilidades de articulação crítica, desmontagem e remontagem dos produtos ideológicos, como na longa tradição inconformista que contempla filmes como “Fúria de Viver” (Nicolas Ray, 1955), “Revolta em Bengala” (László Benedek, 1954), “Perseguição Impiedosa” (Arthur Penn, 1966), “Sem Destino” (Denis Hooper, 1969), “O Cowboy da Meia-Noite” (John Schlesinger, 1969), “O dia dos gafanhotos” (John Schlesinger, 1975) ou “Ragtime” (Milos Forman, 1981).

Todas estas obras são ícones do inconformismo norte-americano em Hollywood, expressões radicais da indignação, olhares ácidos sobre o consumismo, o individualismo e as modalidades de segregação étnicas, sociais, económicas e sexistas (Paiva, 2006).

Uma grande produção do estilo cinematográfico faroeste, como é o filme do realizador italo-americano Sergio Leone, “Era uma vez no Oeste“, de 1968, consegue traçar um mapa da América profunda, pois tais filmes exibem os confrontos entre os ditos “brancos” e os “pele-vermelhas”, em que se desnudam práticas de domínio e estratégias de resistência, correntes estéticas e ideológicas que se deslocam do racismo e etnocentrismo, às acções afirmativas do pós-colonialismo.

“Era uma vez no Oeste”

O faroeste consiste num filão tipicamente norte-americano, como revelam os filmes “Shane” (George Stevens, 1953), “A Desaparecida” (John Ford, 1956), “O Homem Que Matou Liberty Valance” (John Ford, 1962), ou “A Quadrilha Selvagem” (Sam Peckinpah, 1969). Os filmes “de tiros” constitui um dos géneros inaugurais do cinema, como foi o caso da obra de 12 minutos “O assalto ao comboio” (Thomas Edison, 1902), que faz parte estrutural do imaginário norte-americano, como mostra também o filme realizado pelo famoso actor John Wayne, “Álamo“, de 1960 (Paiva, 2006).

“O assalto ao comboio”

A ideia de (con)fusão entre a realidade quotidiana e aquilo que é mostrado nos meios de comunicação, e sobretudo no cinema, continua a verificar-se na actualidade, embora em moldes diferentes daqueles (mais empíricos e de carácter mais psicológico, estamos em crer) definidos por Adorno – filósofo, sociólogo e compositor alemão. Um dos aspectos em que se pode atestar a existência desse limiar e a proximidade dessas duas instâncias, é a sempre recorrente questão da influência da violência representada nos comportamentos dos espectadores, e as atitudes de emulação e imitação supostamente existentes (Nogueira, 1998).

Essa eventual identificação entre os níveis da ficção e da realidade tem uma amplitude variável, mas é certo que a maneira como construímos a nossa visão do mundo, encetamos as nossas relações e delineamos objectivos, são em grande medida inspirados pelos valores estéticos, éticos e políticos que vemos no ecrã – nisso haverá certamente que enunciar o papel das vedetas e dos heróis, padrões morais que, na sua natureza duplamente ordinária e extraordinária, e modelos de identificação e projecção do espectador, se configuram como ícones de um limbo onde o realismo e a idealização se indiferenciam (Nogueira, 1998).

Mitos e filmes são rebeldes à análise e qualquer tentativa de encerrá-los em contornos precisos, sendo que dará uma versão empobrecida da complexidade que os caracteriza. Como as imagens fílmicas e míticas estão num fluxo constante, estas transportam-nos para várias direcções que mostram o esfacelamento do mundo em que vivemos (Guimarães, 1998).

Os filmes são feitos para ser dramas. Este (o drama) restringe-se a vinganças pessoais, a regras morais que delimitam o “bom” e o “mau”. Porém, há filmes que, apesar da sua estrutura dramática, são atravessados em alguns momentos pela tragédia. Na tragédia, desinteressamo-nos pelo drama pessoal e voltamo-nos para a história dos grupos, da humanidade. A tragédia também coloca uma tensão entre os desígnios dos deuses e dos homens, entre o grupo no poder e o povo, entre o individual e o social (Guimarães, 1998).

Bibliografia

Guimarães, Áurea M.. O cinema e a escola: Formas imagéticas da violência.1998.

Nogueira, Luís Carlos. Algumas reflexões sobre o cinema a partir de Adorno.1998. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/nogueira-luis-cinema-adorno.pdf

Paiva, Cláudio Cardoso. O cinema de Hollywood e a invenção da América.2006. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/paiva-claudio-hollywood-invencao-america.pdf

Penafria, Manuela. O Documentarismo do Cinema.2004. Disponível em “http://www.bocc.ubi.pt/pag/penafria_manuela_documentarismo_cinema.pdf

Diogo Passos

Não percam a continuação do trabalho científico, porque nós também não…

One thought on “A violência no cinema americano (Parte 1)

  1. Muito interessante a primeira parte do artigo! Parabéns pela análise profunda do tema.

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