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Conhecido como o glamoroso guitarrista de David Bowie, Michael Ronson foi muito mais do que um membro dos The Spiders From Mars, o mítico trio que marcou a carreira de Bowie no início dos anos 70. “Beside Bowie: The Mick Ronson Story” conta com várias testemunhas que acompanharam a vida do artista antes, e pós-fama, entre eles o produtor Tony Visconti, Suzi Ronson, Angie Bowie, Ian Hunter ou Joe Elliott.

A primeira abordagem deste documentário é o clássico enquadramento do músico britânico natural de Yorkshire. É mencionada a primeira aventura de Ronson na música, numa banda chamada The Rats, onde já se destacava na guitarra eléctrica, não só pela sua técnica, mas também pela sua presença em palco. É neste projecto, já no final dos anos 60, que “Ronno” conhece o futuro baterista dos Spiders From Mars, Michael “Woody” Woodmansey.

O documentário dá um breve contexto cultural à época do fim dos anos 60 em Londres, revelando uma estrela em ascensão: David Bowie. O guitarrista entra na vida de Bowie de uma forma bastante “natural”, com John Cambridge a ser a ligação entre ambos. John foi buscar Ronson à sua cidade natal, Hull, onde esteve estava a trabalhar como marcador de linhas num campo de rugby. Após o encontro com Bowie e a sua namorada, Angie, Ronson rapidamente se mudou para a casa do casal, passando a fazer parte do projecto do cantor, The Hype. Foi aqui que o guitarrista conheceu o produtor, e na altura também baixista do grupo, Tony Visconti.

Visconti conta como Mick Ronson influenciou toda a carreira de David Bowie, e toda a cena glam-rock. Tudo começou com “The Man Who Sold The World”, onde o som da guitarra de Ronson veio dar algo totalmente diferente e inovador aos trabalhos de Bowie. Um excelente exemplo é o riff da música que dá título ao álbum – hoje já tocada por vários artistas. A parceria viria a dar mais frutos, principalmente com “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”, de 1972, que elevou Bowie para um fenómeno à escala global.

Mick Ronson ao vivo no início dos anos 70

Os dois artistas complementavam-se de forma perfeita, com Bowie encarregue da parte teatral e Ronson da dureza e energia do rock and roll. Estamos em 1972, mas no ano anterior “Hunky Dory” já havia sido um sucesso para David. Um álbum ainda “bastante acústico”, mas com clássicos como Life On Mars? ou Changes (um “produto Ronson”). Este marca o início de várias viagens aos Estados Unidos da América por parte da banda, mais precisamente à cidade Nova Iorque, onde Andy Warhol era o maior influencer artístico, e os britânicos vêm-se envolvidos num novo mundo e abertos a novas ideias e projectos.

Mick Ronson é determinante no novo trabalho de Bowie, “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”. Já a saber ler música, aprendizagem motivada por Angie Bowie, Ronson é determinante na sonoridade e nas melodias do álbum, dando vida ao novo alter ego de David: Ziggy Stardust. Contudo, este não tinha chegado à terra sozinho. A grande fluidez de ideias avant-garde fez dos Spiders um marco visual na promoção do álbum. Mick Ronson era muito bem-sucedido entre o público feminino, e o seu glamour não ficava atrás do de David Bowie.

Muito se especulou entre um possível caso entre ambos, quando no Top Of The Pops, em 1972, David coloca a mão por cima de Mick durante a performance de Starman. A equipa era perfeita, tendo “Aladdin Sane”, o sucessor de “Ziggy Stardust”, sido um sucesso. O trabalho de “Ronno” é notório, tendo a digressão sido bem-sucedida, mas aconteceu um golpe de teatro: David Bowie não iria tocar mais ao vivo. Ou pelo menos, nunca mais com aquela formação, e isso confirmou-se. É a partir daqui que “Beside Bowie: The Mick Ronson Story” nos dá uma perspectiva de Mick como, para muita gente pelo menos, não se conhecia: um músico que não é um frontman, mas um “jogador” fundamental numa boa equipa.

Este ainda tentou uma carreira a solo, mas sem sucesso – queriam fazer dele um novo David Bowie. Impossível. Entretanto, ainda em 1972, Mick Ronson havia participado em “Transformer”, de Lou Reed, outro marco importante na sua carreira. Quando Bowie avança para o projecto de “Diamond Dogs”, em 1974, Ronson chega a participar nos ensaios iniciais, contudo, a parceria com Bowie tinha mesmo chegado ao fim. Seguiram-se projectos com Ian Hunter, dos Mott The Hoople, ou a digressão The Rolling Thunder Revue, com Bob Dylan. Este último conheceu “Ronno” (embriagado) num bar.

Ao vivo com Bob Dylan
No tributo ao cantor Freddie Mercury: um reencontro de amigos

O documentário retrata mais episódios até ao final da carreira de Mick Ronson, sendo estes todos “contados” através das pessoas mais influentes na vida do guitarrista à altura dos acontecimentos. O próprio David Bowie é um dos narradores da película. Esta foca-se bastante no período “Bowie”, fase de maior produtividade e mediatismo por parte de Ronson. Contudo, a obra não deixa esquecer projectos importantes em que Mick esteve envolvido, como o trabalho de Morrissey, “Your Arsenal”, no qual “Ronno” foi produtor.

“Ronno” Pós-Bowie

Este produziu bandas como os suecos Leather Nun, entre outros. Mick Ronson morreu no dia 29 de Abril de 1993, com apenas 46 anos, derivado a um cancro no fígado. Mais poderíamos aprofundar, mas a visualização do documentário complementará tudo o que aqui foi dito. “Beside Bowie: The Mick Ronson Story” faz uma boa retrospectiva à carreira de “Ronno”, mas com muito foco em David Bowie, tendo em conta o resto da carreira do artista. É uma estratégia documental aceitável por parte do realizador Jon Brewer.

Existem muitas curiosidades interessantes, tais como certas ligações a artistas que à partida não seriam “compatíveis”. Mas uma das finalidades deste documentário é exactamente demonstrar que Mick Ronson era mais do que um guitarrista: era um músico de estúdio, um animal de palco e um talentoso pianista. Quanto ao lado pessoal, os elogios do costume, sendo que a vida privada do músico é pouco exposta para o grau de proximidade que muitos dos intervenientes neste filme tiveram com “Ronno”.

Para quem conhece mal este artista, é um excelente documentário. Para os que já ouviram e exploraram o trabalho de Mick Ronson, é um complemento interessante, mas não brilhante.

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

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