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Porque A Arte Somos Nós

“Lords of Chaos”, estreado em 2018, é uma tentativa de voltar ao passado e contar uma história com muito misticismo, música, tensões e morte. Muito se especula, e muitos relatos são trazidos a público, daqueles que viveram e experienciaram de perto o surgimento do black metal na Escandinávia, mais precisamente na Noruega e na Suécia, e de bandas como os Mayhem ou Burzum.

Toda a narrativa se desenrola tendo como base um narrador participante, e aqui falamos do ex-guitarrista dos Mayhem: Øystein Aarseth, mais conhecido por Euronymous, interpretado pelo ator Rory Culkin. Tal como este diz no início “posso parecer um adolescente como um outro qualquer, mas não podias estar mais errado“. E com toda a razão.

O argumento foi escrito por Dennis Magnusson e pelo próprio realizador, Jonas Åkerlund, e baseado no livro do mesmo título da película (“Lords of Chaos“), publicado em 1997, da autoria de Michael Moynihan e Didrik Søderlind. No que diz respeito à realização, Åkerlund pretende oferecer ao espectador o privilégio de fazer parte do grupo restrito dos jovens impulsionadores do black metal. Sendo os olhos de Euronymous uma espécie de câmara, conseguimos desmistificar toda a maldade e violência por detrás das personas satânicas. Posers ou não, o filme procura explorar o lado mais sóbrio e real de todas estas pessoas.

O início dá-se com a primeira formação dos Mayhem em destaque, sendo que rapidamente evolui para a procura de um outro baterista, e futuramente, um vocalista. Entre cenas de rebeldia, como fazer graffiti’s e partir garrafas de cerveja, entram em cena Jan Axel ‘Hellhammer’ Blomberg (bateria, Anthony De La Torre) e Pelle ‘Dead’ Ohlin (vocais, Jack Kilmer). Chegamos assim, de forma bastante rápida, à “clássica” formação dos Mayhem. Um dos exemplos que é demonstrado no filme para retratar os episódios “particulares” entre estes jovens músicos, é o envio da demo por parte de Dead para entrar na banda, que se fazia acompanhar de um rato morto crucificado.

Mayhem ao vivo com a sua formação “clássica”

Com a banda formada, entramos no que é o forro psicológico dos dois principais membros: Dead e Euronymous. A influência do novo vocalista fez-se rapidamente sentir. A sua obsessão pela morte influenciou, e de que maneira, o presente e o futuro de Euronymous, que via assim por completa a receita perfeita para instalar a revolução e o terror no mundo da música. Os concertos eram um sucesso: a produção tentou replicar alguns dos planos e acontecimentos das gravações originais. Cenas como Dead a cortar os braços em palco e muitas das fotografias da banda no backstage são exemplos de um trabalho de casa bem feito, pelo menos nesta fase.

Sendo esta uma obra baseada em factos reais, alguns comportamentos podem levantar dúvidas ao espectador, principalmente àqueles que desconhecem a história da banda. A cena do suicídio de Pelle ‘Dead’ Ohlin é algo que, a meu ver, está bastante mal executado. Para além de não ser verosímil o processo que leva à morte do vocalista, a abordagem a essa pessoa (que realmente existiu), tem muito pouco de credível.

É verdade que este sofria de distúrbios mentais, mas a forma como esta personagem é trabalhada ao longo do filme, e tendo em conta o impacto que teve na vida real, não merece nota positiva. Não chega replicar comportamentos como “inalar o cheiro a morto” ou o utilizar em palco roupa que esteve enterrada 24 horas…

Outro ponto de viragem dá-se com o aparecimento de ‘Varg’ Vikernes (Emory Cohen), o futuro baixista dos Mayhem e membro (único) e criador dos Burzum. Visto como sendo um poser – este acaba mesmo por deitar ao lixo o símbolo dos Scorpions, mostrando desde já a sua frágil autoconfiança -, acaba por se inserir no “Black Circle” e por ganhar cada vez mais protagonismo à medida que a narrativa se desenrola. Esta pequena seita começou por definir objectivos pouco conscientes, tais como queimar igrejas e matar pessoas, passando por momentos a música para segundo plano.

Por esta altura, Euronymous já tem a sua própria loja de discos e produtora discográfica. Foi a partir desta última que Varg lançou os primeiros discos dos Burzum. Por esta altura, aparece também o primeiro, e único, elemento feminino com peso em todo o filme. Ann-Marit (Sky Ferreira) é uma peça que até perto da fase final da narrativa não se percebe com quem fica, na disputa EuronymousVarg. Aliás, toda a segunda metade da película é uma espécie de rivalidade entre estes dois artistas.

Rory Culkin no papel de Euronymous
Emory Cohen no papel de Varg Vikernes

A obra dá uma ampla cobertura a muitos dos acontecimentos ocorridos no início dos anos 90 na Noruega, como a destruição de igrejas cristãs em nome do black metal. A razão para tal acontecer, segundo os seus intervenientes, era uma reacção à hipocrisia e à falsa solidariedade por parte dos católicos, defendendo assim as crenças pagãs.

A narrativa, a certo ponto, é uma competição por saber quem é o mais corajoso, destemido e “mau” – entre Vargs e Euronymous, tal como foi mencionado em cima. Com “De Mysteriis Dom Sathanas“, o primeiro álbum da banda, praticamente terminado, os problemas sobem de tom. Com Euronymous a afastar-se cada vez mais do seu passado, querendo focar-se apenas na música, Vargs dá por si num ponto de rutura. As acções do “Black Circle” levaram a justiça norueguesa a actuar, resultando no criador dos Burzum a romper a amizade com Øystein Aarseth de forma extremamente trágica.

Na parte mais técnica, o filme tem pormenores interessantes, como os variados planos de movimento. Não é uma obra que se torne propriamente aborrecida no que toca à dinâmica da imagem, alternando entre momentos com uma excelente fotografia e outros onde simplesmente fica patente alguma falta de qualidade na recriação da história. Para ser mais específico, refiro-me a certas cenas que pecam pelo seu falso exibicionismo, tais como a morte de Dead, ou alguma da linguagem física entre os personagens principais ao longo da obra, parecendo por vezes artificial.

O argumento é muito interessante, tendo em conta a peculiaridade deste momento na história da música escandinava, mas a abordagem ao mesmo merecia mais. Os atores são competentes, apesar de não ser fácil recriar este tipo de artistas, sendo que os seus diálogos muitas vezes não fazem jus à intensidade da mensagem. Contudo, para os que se interessam por este tema e pela história dos Mayhem, é uma experiência agradável – quanto mais não seja para criticar e redescobrir alguns pormenores interessantes.

Rating: 2 out of 4.

IMDB

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