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Porque A Arte Somos Nós

É verdadeiramente impressionante – e até assustador – verificar o quanto a tecnologia evoluiu em apenas 26 anos, o tempo que separa “The Lion King” (“O Rei Leão“) da sua versão original (1994). O desenho está a ser rapidamente substituído por ação real computorizada, com a Disney a liderar uma campanha de refilmagens do seu catálogo de animações clássicas. Entre as quais já contam títulos como “Dumbo” e “Aladdin“, apenas o ano passado. No entanto, este é possivelmente o exemplo mais deslumbrante e tecnicamente detalhado de um ponto de vista visual até à data, pois não se trata apenas de ação real, mas sim de imagem fotorrealista.

Quanto à história, o filme realizado por Jon Favreau inventa pouco ou nada. Abre com a cena clássica da montra de animais a prestar ovação ao novo príncipe, Simba (JD McCrary; Donald Glover), ao som da intocável Circle of Life. A partir daí acompanhamos o jovem protagonista num processo de maturação duro, onde a traição e a manipulação colocam em causa não só a sua identidade, como todo o reino. Cabe agora ao pequeno leãozinho amplificar o seu rugido e cumprir o seu dever.

Pequeno Simba

Tendo em conta a familiaridade da narrativa e a grandiosidade do filme original, seria fácil desprezar “O Rei Leão” como uma mera imitação pálida e redundante. Algo que negligenciaria a arquitetura pioneira, quer do cenário como das personagens, assim como um ótimo trabalho de vozes por parte dos atores e uma banda sonora gloriosa que vê de regresso o compositor original, Hans Zimmer, para pequenos ajustes.

Concretizando a questão da animação, quer os animais como a savana que os circunda oferecem uma percepção de tato e presença tal, que não fossem as falas e os cantos, diria que estava a ver um documentário dramatizado sobre a vida animal. Se esticasse a mão, podia sentir o calor do sol vermelho, a brisa leviana ou a majestosa juba de Mufasa (James Earl Jones), pai de Simba. Um feito impressionante com um trabalho de câmara fluído e em pleno controlo dos planos.

Além do mais, o filme triunfa nas secções musicais e consegue vários momentos cómicos, principalmente quando a dupla Timon (Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen) entra no enredo. Tudo isto permite que esta adaptação brilhe per si e fuja da pura capitalização de nostalgia.

Can You Feel the Love Tonight?
“Hakuna Matata”

Todavia, a imagem fotorrealista apresenta um conjunto de limitações que diminuem o potencial dramático da narrativa drasticamente: fecha as feições das personagens em prol de realismo e rouba parte do encanto característico das fábulas. Existe um estranho conflito entre o comportamento do animal selvagem na realidade e do animal animado no grande ecrã. Igual, mas, ao mesmo tempo, completamente distante.

O que em última instância não penaliza “O Rei Leão” em termos de entretenimento, a história da queda de um rei e da ascensão de uma cria que desde 1994 faz vibrar e comover o mundo. Agora, em 2020, pode ser vista através de uma nova lente, uma lente tecnológica que oferece tantas possibilidades quanto desafios.

Bernardo Freire

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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