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Já em 1927 podíamos sentir a obsessão do realizador britânico Alfred Hitchcock por psicopatas. Apenas com 27 anos, o seu terceiro filme marca o início de uma longa jornada de thrillers que lhe garantiram o mediático título de “mestre do suspense“. Adaptado do romance da autora Marie Lowndes, “The Lodger teve como inspiração os assassinatos de Jack, o Estripador. Esta foi a primeira de várias interpretações que culminaram no filme do canadiano David Ondaatje – “O Hóspede Suspeito” (2009).

Um estranho (Ivor Novello) procura acomodar-se numa pensão entre o nevoeiro londrino e bate à porta de uma família que lhe concede um pequeno apartamento no andar superior. Daisy (June Tripp), a filha loira do casal, fica atraída pela beleza e mistério do cavalheiro. Os seus pais começam a suspeitar das intenções do inquilino, afinal de contas, está um assassino em série à solta pelas ruas de Londres com um interesse especial em loiras e quem sabe se não é o hóspede.

Será a personagem título o louco que tanto se fala? Tem certamente um comportamento suspeito, e o facto de pedir para removerem todos os quadros com mulheres de cabelo claro do seu quarto só vem acrescentar à desconfiança. O elemento “quem-o-fez” acaba por ser a atração principal da narrativa, que é simples na sua essência. Em destaque está também a câmara do diretor de fotografia Baron Ventimiglia e os esporádicos efeitos especiais de Paul Dooganm, que ajudaram a aprimorar a linguagem cinematográfica quando esta ainda estava numa fase embrionária.

June Tripp e Ivor Novello

O dinamismo e ritmo que Hitchcock imprime na história refletem a sua vontade de experimentar com o meio das imagens em movimento. O resultado é uma atmosfera inquietante, fruto de uma montagem que manipula os sentidos e guia a história em sentidos distorcidos. A influência do movimento expressionista alemão também está presente, não só no uso de algumas sombras deturpadas, como no uso frugal de intertítulos que apenas intervinham na narrativa quando os atores não podiam expressar o que estavam a pensar.

Em contraste com as atuações comuns na era dos filmes mudos, o elenco consegue alguma subtileza nas atuações, apesar da tenra caracterização. Em certas cenas, Novello capta uma performance genuína, enquanto noutras parece limitado às indicações dadas por trás da câmara. Daisy, apesar de essencial, fica um pouco na sombra das atuações dos seus pais e do seu namorado Joe (Malcolm Keen) – também polícia nesta história macabra.

The Lodger

É de louvar a curiosidade e o empenho de Hitchcock, ainda que as temáticas sejam abordadas de forma crua, com poucas nuances. O suspense é manufaturado o suficiente, mas “O Inquilino Sinistro” está um pouco limitado pelo enredo, principalmente no que diz respeito a algumas interações pobres entre as personagens. A assertividade do clímax também prejudica o clima de tensão crescente, que evapora nos últimos 15 minutos.

A narrativa não tem nada de bom a dizer sobre o sensacionalismo dos media. Insistentes em espalhar o pânico pela cidade enquanto os homicídios são cometidos. Integra, contudo, as ideias primárias que o realizador iria trabalhar e aprimorar em projetos futuros. Acaba por ser uma demonstração competente dos avanços tecnológicos nas produções cinematográficas, no final dos anos 20.

Bernardo Freire

⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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