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Porque A Arte Somos Nós

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa a 1 de Setembro de 1942, no seio de uma família da alta burguesia. Estudou no Liceu Camões em Lisboa e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Escritor e psiquiatra, esteve muitos anos a escrever sem publicar nada e sem a decisão de ser escritor. Em miúdo, depois do liceu, depois da Guerra, já depois das consultas, António Lobo Antunes publica o primeiro livro em 1979, “Memória de Elefante“. Seguem-se mais de 30 romances e umas centenas de crónicas. Todas as páginas nos levam para os seus lugares, raramente pacíficos.

Disse em tempos que não é fácil viver consigo porque “parece que está sempre em Guerra Civil”. Entremos nessa Guerra que é Lobo Antunes na Literatura.

Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que os meus livros não são para serem lidos no sentido em que usualmente se chama ler: a única forma parece-me de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença” …

António Lobo Antunes tenta escrever como nós somos: ele tenta integrar o passado de forma literária, misturando diferentes níveis temporais e dando-nos um género de realidade recortada. É um artista que enche os seus livros de silêncio, deixando a tarefa ao leitor de ler as palavras que não estão lá escritas e que, no entanto, estão lá. Pinta-os de paisagem interior, desmistificando a angústia do homem do tempo, a procura de si, da natureza do Homem. Com os territórios ficcionais que cria, nascem um jogo de espelhos — transversais e espontâneos —, sendo a própria escrita (estilo) a moldar a estrutura do livro. As palavras — que vão carregando as emoções que se desprenderam do criador.

Aquilo a que por comodidade chamei romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que se quiser, apenas se entenderão se os tomarem por outra coisa. A pessoa tem de renunciar à sua própria chave aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia e utilizar a chave que o texto lhe oferece. De outra maneira torna-se incompreensível, dado que as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana” …

(em cima exemplos de obras literárias escritas por António Lobo Antunes)

Na chamada “doença” dos livros, ele encontra a perfeição na felicidade da mão que escreve, sem intriga, apenas interioridade.

A literatura são verdades e descobertas na mente do escritor, um deserto com vozes, reduzido à pedra de que somos feitos. Assim, na alma de Lobo Antunes, um livro trata do que vai escrito nele, embelezando a pergunta perpétua que é a Vida. Mas, muitas vezes, na génese dos seus livros, traz a resposta às perguntas que nós não fizemos. O sonho que Lobo Antunes concretiza é o de contrair a floresta de enganos que a escrita propõe, sempre no “não chegar” que define a nossa grandeza.

Os romances maus contam histórias, os romances bons mostram-nos a nós mesmos

Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras, que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a viagem e fechado o livro convalesça” …

Foi galardoado com o Prémio Camões em 2007, a distinção de maior prestígio da literatura em português e é, porventura, o melhor escritor português da actualidade.

Disse em tempos que o livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois somos. Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos como quem regressa da caverna do que era. É a única salvação que conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa“.

Tiago Ferreira

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