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Porque A Arte Somos Nós

Há discos que mudam a vida de uma pessoa, mudam até a história da música, que criam um tremendo impacto que a humanidade não consegue prosseguir como era dantes. É o caso de “Trout Mask Replica”. Ao longo da história do rock, alguns discos chegaram ao topo do Olimpo e permaneceram até aos dias de hoje como clássicos.

Música incontornável que recebe cada geração de braços abertos, estou a falar de, por exemplo, “The Dark Side of The Moon” dos Pink Floyd; “Abbey Road” dos The Beatles; “Electric Ladyland” de Jimi Hendrix; e “Kind of Blue” de Miles Davis. Mas como sabemos, nem todos os deuses gregos vivem no Olimpo, e há um que vive isolado no submundo bem longe do Sol e dá-se pelo nome de “Trout Mask Replica”.

A música após a primeira audição pode parecer uma confusão incoerente de free jazz, blues, rock experimental e musique concrète, aparentemente feita em cima do joelho enquanto a banda estava no estúdio. Como uma vez Van Vliet disse acerca do álbum: “It is trying to break up the mind in many different directions, causing them not to be able to fixate; this is what I was trying to do“. Isto é exatamente o que ele concretizou depois de inúmeros ensaios com a sua banda.

A verdade é que o que se encontra em “Trout Mask Replica” é realmente complexo, totalmente inacessível ao grande público, e pioneiro. Frownland, a primeira faixa do disco, estabelece a premissa para o resto do caminho: isto vai ser de difícil digestão. Contudo, este um minuto e quarenta e um segundos tem muito que se lhe diga. Baseado em polirítmos e politonalidade, há nesta breve composição 21 (!) motivos musicais, que individualmente são bastante complexos e, às vezes, ocorrem em simultâneo em diferentes tempos.

O que acontece posteriormente à faixa de abertura segue esta moldura durante quase 80 minutos, com alguns interlúdios de piadas ou improvisações que duram alguns segundos. Analisar cada uma das faixas presente no álbum é algo digno de uma tese de doutoramento. Na parte lírica, Don Van Vliet, o nosso estimado Captain Beefheart, escreveu a sua própria antologia de poesia mergulhada no surrealismo e carregada de humor.

Se alguém considerar “Trout Mask Replica” como o melhor disco alguma vez feito ou o pior, é igualmente aceitável. Este álbum, produzido pelo seu amigo de infância Frank Zappa, é o selo duradouro no mundo deixado por Don Van Vliet. Este trabalho de tamanha liberdade criativa no mundo do rock abriu as portas para possibilidades musicais sónicas. A sua música passou a inspirar e influenciar artistas tão diversos quanto Pere Ubu, Divo, Talking Heads, Public Image Ltd., Tom Waits e The White Stripes.

As suas impressões digitais estão por toda a música pós-punk, new wave e rock experimental. Toda a vez que um artista improvisa ou mostra tendências extremamente experimentais fora do jazz ou da música clássica, estão a seguir o caminho que Captain Beefheart and his Magic Band pavimentaram, o que faz de “Trout Mask Replica” um clássico.

João Filipe

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