OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Após a estreia de “Stygian” (2000) ter passado completamente por baixo dos radares do público, o realizador e argumentista James Wan celebra o seu segundo filme com sabor a vitória. “Saw – Enigma Mortal” vem fortalecer um género à data sedento por originalidade e começa uma franquia que, apesar de não apelar a quem desconsidera os seus méritos, ainda hoje proporciona um tratamento tenso ao seu público-alvo no Halloween, época que a saga assegurou para inaugurar as sequelas.

O filme começa numa casa-de-banho nojenta e trancada. Um relógio novo aponta para as 14:00 horas. Nas extremidades do local encontram-se dois homens acorrentados por uma perna a um tubo. No centro do chão um corpo descansa numa poça de sangue. Perto dele encontra-se um revólver, um gravador e um serrote. Os homens são Adam (Leigh Whannell, que co-escreveu o argumento) e Dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes). A confusão é enorme nas suas cabeças: “Como é que fomos aqui parar?“; “Porquê que estamos aqui?” Inesperadamente, um gravador comunica que Dr. Gordon tem de matar Adam até às 18:00 horas, ou a sua mulher (Monica Potter) e filha (Makenzie Vega) serão assassinadas.

A simplicidade da premissa e o facto de Wan entender que as primeiras cenas são chave para prender a atenção da audiência, tornam “Saw – Enigma Mortal” num thriller prontamente intrigante. Junta-se à vigorosa lista de filmes de assassinos em série que, com o seu vasto tempo livre, elaboram meticulosos puzzles para as suas vítimas e para a polícia. Desta vez, a mente por trás do jogo psicológico é a do titulado “Jigsaw Killer”, que se destaca dos restantes criminosos por ter uma ambição moral no núcleo das suas motivações – algo que foi sendo explorado pela saga.

Num sub-enredo da narrativa, os detetives David Tapp (Danny Glover) e Steven Sing (Ken Leung) investigam as vítimas das armadilhas – quase – mortais do maníaco (apenas uma delas sobreviveu). Todas têm algo em comum: desvalorizam a sua existência através de vícios ou comportamentos vis, algo que Jigsaw não tolera. Tudo o que ele deseja é que as pessoas tenham mais gratidão por aquilo que têm nas suas vidas, tornando o filme num estudo social provocador. Condenável, é certo, mas admirável de assistir no conforto do assento.

Movido pelo género, Wan, em conjunto com o diretor de fotografia David Armstrong e o editor Kevin Greutert, faz com que o cenário seja mais atraente do que realmente é. As atuações são parte convincentes, parte desleixadas, fruto de um argumento que, uma vez mergulhado na sua história, apresenta diálogos estranhos e algumas frases clichés como: “Se puseres um dedo nelas, eu mato-te!“. Para não falar da exposição que peca por excesso.

Inspirado na curta-metragem do mesmo nome e realizador, “Saw – Enigma Mortal” inovou no seu tempo ao protagonizar dispositivos construídos para infligir dor, sendo ao mesmo tempo mais do que um mero exercício em tortura. As cenas no parque de estacionamento e no escurecido apartamento mantêm-se assustadoras, a voz grave que sai do gravador continua a ser ameaçadora e o choque final, com a música Hello Zepp, continua a garantir a dose certa de calafrios.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: