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Porque A Arte Somos Nós

Uma experiência — acima de tudo — reconfortante é a que “12 Homens em Fúria” (1957) nos permite, não só porque se centra numa categoria mais intelectual que sensitiva, consegue dar-nos uma aula de argumentação, apreensão daquilo que deve ser a nossa atitude perante a vida, perante o mundo… e até perante a “nossa verdade”. Numa obra onde o silêncio significa, fundamentalmente, razão e discernimento, a verdade começa na razoabilidade da dúvida. Muito filosófico, portanto, mas essencialmente frio quando mostra a verdadeira essência do ser humano, por vezes incapaz de reconhecer quando não tem a razão do seu lado.

Estamos num julgamento por homicídio e a vida de um rapaz de 18 anos, o acusado, está nas mãos, ou no bom-senso, de 12 júris. Têm de chegar a um consenso e determinar se estamos a falar de um culpado ou inocente. Em causa está a sua possível morte na cadeira eléctrica. Estamos na década de 1950. Infelizmente, o medo pela verdade, a maior das ignorâncias, assombra a intelectualidade da narrativa — ou melhor, inicialmente de 11 dos 12 protagonistas. É, literalmente, um contra todos. Conseguirá ele convencer os restantes, apenas pelo raciocínio lógico? Pelo caminho, a tranquilidade está associada à abertura, contra a procura pela universalidade da verdade, dos factos, cega pelos dogmáticos. “Ninguém está inteiramente certo. Ninguém está inteiramente errado. Fazemos todos parte de um todo, que procura a possível aproximação à verdade“… eis a verdadeira epígrafe defendida pelo júri n°8 (Henry Fonda — que faz uma interpretação fantástica).

O argumento é fabuloso (Reginald Rose) e a realização estupenda (Sidney Lumet). Uma das coisas que marca mais negativamente o ser humano — cognitiva e emocionalmente —, e que é extremamente bem retratado aqui, é a mentalidade geral de facilitar as coisas, de pensar menos… que pensar custa (e pensar bem ainda mais). O facto de a sinceridade ser, ridiculamente, circunstancial e haver pena pelo “reconhecimento” da (real) verdade, mostra não só que estamos a agir mal no mundo, mas também que estamos a pensar mal o mundo. Queremos é despachar as coisas, e somos frios, tábuas rasas de compaixão, insensíveis e cobardes na hora de sermos racionais. E, claro, extremamente parciais.

No final de contas, temos uma obra magnífica, pura, simples mas ágil, onde um ser humano tenta elucidar outros a reconhecer a sua própria sensibilidade e sensatez, abandonando estigmas, e abraçando princípios cautelosos.

O branco no meio da escuridão encontra a satisfação por trazer humanidade ao mundo. Tal como “12 Homens em Fúria” trouxe artisticamente a nós, rendidos espectadores.

Tiago Ferreira

⭐⭐⭐⭐

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