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As pessoas não param de ver quando existe um conflito. Elas param de ver quando não existe um” – “Bombshell”

A frase é da autoria de Roger Ailes, o presidente e chefe da Fox News que foi apanhado no seio de um escândalo de assédio sexual. Alavancado pelo movimento #MeToo e por uma consciência coletiva crescente, ” Bombshell – O Escândalo” relata a cronologia dos eventos que levaram o executivo a ser despedido em 2016. A experiência do filme é inevitavelmente influenciada pela orientação política de cada um, no entanto, a mensagem fundamental é moralmente inquestionável e deve ser um ponto de união entre qualquer partido.

A realização é de Jay Roach e o argumento pertence a Charles Randolph, que venceu o Óscar de Melhor Argumento pelo filme “A Queda de Wall Street” (2015) – Sobre a desconstrução do que levou à crise financeira em 2008. Com este novo texto, Randolph procura, entre outros pontos, examinar o que é que perpetuou a misoginia por parte de vários executivos na empresa e a competitividade tóxica que se vivia nos escritórios da empresa.

Para o efeito, o realizador enquadra três bombas de atrizes nos papéis centrais: Charlize Theron, Nicole KidmanMargot Robbie. Theron está irreconhecível na pele de Megyn Kelly, uma advogada que se tornou na jornalista de ouro da Fox News; Kidman interpreta com calculismo a ex-Miss América e apresentadora televisiva Gretchen Carlson, que deu início às acusações de assédio; E Robbie encarna uma personagem fictícia chamada Kayla Pospisil, novata, ambiciosa, uma representação de todas as mulheres que sofreram de algum tipo de violência no trabalho. O elenco é pontuado com a prestação odiosa e apropriadamente repugnante de John Lithgow no papel de Roger Ailes.

Com os trunfos em jogo, “Bombshell – O Escândalo” aposta em contar a sua história através de vários pontos de vista que se cruzam pelas circunstâncias. É informativo, bem-intencionado, mas nota-se que está profundamente irritado com toda a situação. Uma interpretação dos acontecimentos ao estilo de Hollywood, do género que motiva os discursos de inclusão nos Óscares. O que não é um ponto negativo per si, ao contrário da falta de ousadia cinematográfica que dispõe. Não tem, por exemplo, a crueza ou sagacidade que tornam uma biografia como “O Caso Spotlight” (2015) tão memorável.

No entanto, a pertinência do filme mantém-se. Sensibiliza para um tema que ainda há bem pouco tempo não tinha lugar nas bocas das pessoas e coloca um predador num merecido holofote. Por isto, e pelas interpretações resilientes – em especial Theron, que capta a turbulência interior de uma personagem que procura manter a sua vida laboral, pessoal e moral equilibrada – é uma narrativa verídica que merece ser contada, partilhada e evitada.

Bernardo Freire

Rating: 2.5 out of 4.

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