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Porque A Arte Somos Nós

Noutros tipos de épicos podemos salientar, no género de guerra, “A Ponte do Rio Kwai” (David Lean, 1957 – 2:41h) que retrata a forma como os prisioneiros britânicos foram forçados pelos japoneses a construir uma ponte ferroviária sobre o rio Kwai, que se situa na Tailândia – apesar do filme ter sido quase por completo rodado no Sri Lanka. O filme conquistou sete Óscares, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Actor para Alec Guinness. Os cenários são fantásticos e a tensão é permanente, com o excelente desempenho de todo o elenco. Uma obra a não perder. Já quanto a romances épicos não podemos deixar de destacar o incontornável “E Tudo o Vento Levou” (Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood, 1939 – 4:05h) com a fantástica história de Scarlett O’Hara durante a Guerra da Secessão numa América em grande convulsão. Este é considerado hoje, talvez, o filme mais bem sucedido da história do cinema e não foi por acaso que conquistou oito Óscares, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Actriz com Vivien Leigh. É difícil encontrar adjectivos para descrever a dimensão de tudo nesta obra cinematográfica, desde os cenários, o elenco, o guarda-roupa, a pós-produção, etc. Quanto ao numeroso elenco não é possível não falar de Vivien Leigh num desempenho imaculado, Barbara O’Neil, o charmoso Clark Gable, Evelyn Keyes e muitos muitos outros. Outra referência neste tipo de épico é “Doutor Jivago” (David Lean, 1965 – 3:17h) com o magnifico Omar Sharif no papel principal. A trama desenrolasse durante a Revolução Russa de 1917 e relata a história amorosa entre um médico e uma enfermeira, que por circunstâncias várias não prevalece. O filme viria a conquistar cinco Óscares, destacando-se o prémio para Melhor Música. Para além de Omar Sharif, destaca-se no elenco Julie Christie e Geraldine Chaplin, e os cenários naturais do filme são deslumbrantes. Uma obra de referência.

Mas com o tempo tudo se altera e a indústria cinematográfica não é excepção. O conceito de filmagem de grandes obras, como as que até aqui descrevi, consistia na utilização de cenários muito próximos da realidade e a utilização de muitos figurantes (centenas ou milhares em alguns casos) para dar a percepção de como tudo era à época. Já para não falar em guarda-roupas megalómanos e utilização de recursos físicos que nos aproximassem o mais possível de como tudo se passava.

Hoje continuamos a produzir épicos, com uma pequena diferença, temos computadores e programadores absolutamente brilhantes a conceber cenários virtuais. Ou seja, se hoje decidíssemos produzir uma obra como “Ben-Hur”, iríamos utilizar uma centésima parte dos recursos que à época foram necessários, se tanto. É possível hoje retractar cenários gigantescos com uma tela verde e os actores a representar à frente. Imagine-mos a cena que já referi da corrida de brigas. Bastava colocar os actores intervenientes na corrida devidamente enquadrados com a concepção do público e cenário na tela verde e… já está! Sem sair de um pequeno estúdio obtemos o mesmo efeito, ou melhor. Para comprovar o que acabo de referir, basta ver a versão de 2016 de “Ben-Hur“, que se mantém fiel à obra original, mas com um pequeno pormenor, é possível ter uma visão muito mais alargada dos cenários que envolvem a acção, e tudo graças aos cenários virtuais e ao 3D que nos permite viver a cena “por dentro”. É o maravilhoso mundo novo do cinema: os computadores. Poderão dizer que não é a mesma coisa, é certo, no entanto quando nos deixamos envolver pela acção tudo fica diferente e é mesmo possível vivenciar sensações que de outra forma não seriam possíveis. A já referida projecção em três dimensões (3D), o som surround e a envolvente das atuais salas de cinema, permitem-nos ter uma experiência muito superior à que era possível há cinquenta ou sessenta anos atrás. Um excelente exemplo do que acabo de referir são filmes como “Noé” (Darren Anorofsky, 2014) ou “Titanic” (James Cameron, 1997), para já nem falar de épicos como “Star Wars“, “O Senhor dos Anéis“, “As Crónicas de Nárnia” ou “Os Jogos da Fome“, que se desenvolvem ao longo de vários capítulos, mantendo uma legião de seguidores agarrados à tela.

É obrigatório referir algo que é comum a praticamente todas as grandes obras épicas: a banda sonora. Qualquer obra desta dimensão tem que ser acompanhada por uma banda sonora à altura, pois esse é um vector que influencia a forma como o público vive a obra. Em praticamente todos os épicos, as cenas são “vestidas” com música adequada ao momento, tendo todos eles obras originais especialmente concebidas para o momento. Prova disto é o facto de várias bandas sonoras terem ganho Óscares da Academia. Não é possível esquecer a maravilhosa melodia de “Doutor Jivago”… ou não identificar o tema de “Star Wars”.

É mesmo esse o objectivo. Um filme não se mede, certamente, pela sua grandiosidade. No entanto, foi isso que fez estes filmes grandiosos. Não é possível pensar em cinema sem pensar em grandes épicos, antes como agora.

Bons filmes.

Jorge Gameiro

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