OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

I – Insomniac Games: a bandeira da PlayStation Studios

A Insomniac Games tem sido um dos principais estúdios da Sony

Poucos estúdios de videojogos têm merecido apreço tão incondicional como a Insomniac Games. Talvez a principal bandeira da PlayStation Studios (divisão gaming da Sony), o estúdio tem sido dos principais responsáveis por impulsionar as vendas da PlayStation 4 e 5, com títulos como “Ratchet & Clank: Rift Apart“, “Marvel’s Spider-Man” e “Marvel’s Spider-Man: Miles Morales“. Uma das mais cativantes facetas destes jogos é a alta qualidade da sua produção, sobretudo quando tido em conta o relativamente curto espaço de tempo entre os seus lançamentos.

“Spider-Man 2” dificilmente poderia, por essas e outras razões, acarretar maiores expectativas. O sucesso generalizado de “Spider-Man” e da ‘semi-sequela’ “Miles Morales”, bem como a curiosa quantidade de outras incursões recentes neste universo (como os filmes do MCU ou até a franquia de animação “Spider-Verse“), ajudaram a tornar este lançamento cada vez mais antecipado e colocaram uma fasquia bastante elevada.

II – Juntos somos maiores

“Spider-Man 2” conta com dois protagonistas: Peter Parker e Miles Morales

Os primeiros teasers e trailers indiciavam que a história voltaria a centrar-se nas vidas dos dois Spider-Man de Nova Iorque (Peter Parker e Miles Morales), mas o maior causador de espanto era a promessa de ambos serem pela primeira vez protagonistas jogáveis.

Esta nova aventura inicia-se meses depois dos acontecimentos de “Miles Morales”, após o regresso de Peter Parker a Nova Iorque (motivo que justificou a narrativa a solo de Miles). Apesar da existência de uma dupla de protagonistas, Peter assume um papel ligeiramente mais central, servindo como mentor de Miles, tanto na sua vida de herói como na sua mais terra-a-terra vida pessoal, no papel de estudante prestes a candidatar-se à universidade.

Aliados conhecidos como MJ Watson (companheira de Peter) e Ganke (amigo de Miles) mantêm-se como parte integrante do enredo no papel de personagens coadjuvantes fortes, juntando-se-lhes outras um pouco mais secundárias como J. Jonah Jameson, Yuri Watanabe ou Hailey Cooper.

III – Sensação de escala

O jogo começa num ritmo acelerado, com uma boss fight contra Sandman

Um dos segredos da franquia tem sido o de começar os seus jogos em grande, com primeiras missões de fazer inveja a muitas boss fights finais. Enquanto muitos jogos (mesmo incluindo os gigantes lançamentos triple A) aproveitam os primeiros minutos de jogabilidade para ensinar controlos e mecânicas através de momentos e situações mais corriqueiras, os jogos da série “Spider-Man” atingem objetivos similares com momentos de ação, tipicamente tirando proveito de vilões mais acessórios da narrativa. Em “Spider-Man 2”, o prólogo do jogo inclui uma batalha contra o gigantesco Sandman, prometendo um aumento na escala quando comparado com os predecessores.

Embora tanto Sandman como outros vilões conhecidos do universo tenham aparições ou reaparições nesta sequela (como Lizzard, Scorpion, Tombstone ou Mister Negative), a narrativa foca a sua atenção maioritariamente em duas forças do mal. Em primeiro lugar, em Kraven the Hunter, líder de um grupo mercenário (os Hunters) apenas preocupados em fazer de presas tanto super-heróis como vilões. Numa fase posterior, os holofotes são virados para Venom, uma entidade extraterrestre já com aparições de destaque noutras obras do mesmo universo, como no Sony’s Spider-Man Universe ou na trilogia de Sam Raimi, em “Spider-Man 3“.

Talvez a maior crítica que se pode fazer à história esteja precisamente relacionada com a multiplicidade de componentes narrativas, podendo esta ser olhada sob dois prismas. Por um lado, pode ser argumentado que o número de enredos justificava alguma expansão no número de horas do jogo, sendo que o estúdio não se quis distanciar das 20 a 30 horas de narrativa com receio de perder ou aborrecer jogadores. Ou então, tendo já planeado o jogo para essa duração, não teve coragem para sacrificar ramos narrativos e dar ao jogador mais tempo para digerir cada um. Como consequência, alguns arcos terminam demasiado rápido ou poderiam ter sido mais explorados.

É uma crítica menor à história, que, ainda assim, consegue não deixar de estar prendada de momentos de uma espetacular ação, emoção e humanidade, podendo, inclusive, ser considerada a narrativa mais completa dos três jogos da série.

IV – Liberdade e libertinagem

Fora das missões, é possível trocar quase instantaneamente entre Peter e Miles

A gestão entre os protagonistas Peter e Miles beneficia simultaneamente da liberdade e flexibilidade a que o mundo aberto é propenso. Ao mesmo tempo, consegue esporadicamente restringir esta liberdade em prol de maior coerência narrativa.

Numa linguagem mais simples e pragmática, quer isto dizer que nos momentos entre missões, o jogador pode escolher controlar Peter ou Miles, podendo a qualquer momento trocar de personagem (muito similar à mecânica adotada e popularizada por “GTA V“). A troca é quase instantânea, extremamente satisfatória e ajuda a defender a escolha de lançar o jogo apenas para o hardware mais poderoso da PS5.

Enquanto em modo open world, o jogador pode interagir com a cidade de Nova Iorque através de um conjunto de atividades que já será familiar aos fãs do género, com pequenos crimes de rua, desafios de combate ou missões secundárias. Quer estas missões, quer as chamadas missões principais, estão diretamente ligadas a um dos dois protagonistas, significando que só podem ser iniciadas com um Spider-Man específico.

Esta característica é menos notória nas missões secundárias (pois podem ser completadas a qualquer altura), mas nas missões principais a sua estrutura faz com que o progresso seja linear e igual para todos os jogadores, pois a ordem das missões já está predefinida. Como mencionado anteriormente, esta linearidade da história principal é compensada com um ritmo mais dominado.

V – Adições cirúrgicas à jogabilidade

O novo wing suit permite uma deslocação ainda mais rápida por um mapa que também foi aumentado

Por muito que a história mereça todos os elogios, é a jogabilidade que mantém os fãs colados ao universo durante dezenas de horas. Uma visão mais redutora poderá argumentar que a jogabilidade não mereceu muitas alterações quando comparada com “Spider-Man” ou “Miles Morales”. E, embora essa visão possa ser verdadeira, as pequenas alterações cirúrgicas que foram feitas fizeram uma grande diferença.

As mudanças mais visíveis talvez tenham sido na movimentação, permitindo ao jogador usar as tradicionais teias ou o novo wing suit. Este novo meio de transporte permite a Peter e Miles deslocarem-se pela cidade com uma velocidade muito superior às teias, especialmente em zonas marítimas, onde as teias não são grande ajuda. O acrescento de túneis de ar e zonas que servem como fisga fazem com que ir de uma ponta à outra do mapa seja mais rápido, tornando o fast travel praticamente obsoleto.

O aumento da velocidade está de mãos dadas com a maior área jogável no mapa, estendendo o distrito de Manhattan e adicionando novos locais no outro lado do rio East, que ajuda também a justificar a adição do wing suit. Independentemente do novo meio de transporte, o sentimento de regozijo ao usar as teias faz com que a navegação mais lenta seja muitas vezes escolhida em detrimento da opção mais rápida.

O combate mantém-se fiel a si próprio, com o desafio adicional de gerir os poderes distintos dos dois protagonistas. Os movimentos principais, tais como os golpes corpo a corpo, a possibilidade de esquivar de ataques ou de atirar objetos são comuns a Peter e a Miles. Além disso, a Insomniac terá entendido que, não podendo uniformizar os ataques especiais, ao menos faria sentido uniformizar os gadgets.

Estes foram também reduzidos para apenas quatro, de modo a permitir que fossem mapeados para os quatro botões do comando e eliminar a necessidade de parar o jogo para escolher estes aparelhos. Esta decisão é bem conseguida por tornar os combates mais fluidos, mas também pelos gadgets escolhidos serem suficientemente distintos para poderem ser usados de forma deliberada.

As habilidades, embora diferentes entre Peter e Miles, foram agrupadas no mesmo botão para efeitos (por exemplo: as habilidades que atiram inimigos para o ar são sempre no botão “X”). Ao contrário dos gadgets, ao longo da história são desbloqueadas novas habilidades, mas só podem ser equipadas quatro em simultâneo, obrigando o jogador a medir os compromissos entre estes poderes.

Os jogadores irão certamente notar diferenças mais evidentes nos inimigos do que no combate per se, pois existe maior variedade de inimigos e novos ataques. Dependendo do inimigo, é possível esquivar aos seus ataques, bloqueá-los ou até não ser possível nenhuma das opções anteriores. A possibilidade de fazer parry a alguns ataques adiciona um novo grau de desafio a uma franquia que não é particularmente conhecida pelo grau de dificuldade.

VI – Um novo triunfo da Insomniac

“Spider-Man 2” é facilmente o melhor jogo da saga

As grandes batalhas são em maior número e qualidade do que em “Spider-Man” e “Miles Morales”, naquele que é o aspeto do combate onde as melhorias mais são notórias. Uma das críticas possíveis, contudo, são algumas boss fights que possuem diferentes fases, mas em que a distinção entre cada uma é pouco diferenciada.

Como é normal nos grandes blockbusters gaming, há todo um conjunto de outras mecânicas secundárias para limpar o palato e obter momentos mais sossegados. Algumas missões requerem a resolução de pequenos desafios lógicos, análise de cenas de crime ou desafios de web swinging. Não se pode dizer que estas vertentes secundárias estejam ao nível das principais, mas a sua presença é bem-vinda para quebrar o tom acelerado da maioria da narrativa e não deixar que uma experiência de 30 a 40 horas se torne monótona.

“Spider-Man 2” é, em praticamente todos os campos, um jogo superior aos antecessores. Não se pode dizer que tenha revolucionado o género, como “Spider-Man” esteve próximo de fazer em 2018, mas conseguiu encontrar um ponto interessante entre a revolução e a estabilidade.

VII – O derradeiro teste: não há duas sem três ou à terceira é de vez?

O caminho está aberto para uma nova sequela

O final do jogo deixa tudo em aberto para a continuidade de uma nova sequela e abre o apetite dos fãs ao prometer um vilão que já está a ser ‘cozinhado’ desde o primeiro jogo. Com muito pouco a melhorar, um eventual “Spider-Man 3” será um derradeiro desafio para a reinvenção ou estagnação da saga.

Disponível em: PS5

Luís Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading