Se é verdade que temos assistido ao ressurgimento da carreira de Nicolas Cage nos últimos anos, o seu currículo indica-nos que esta pode voltar a esbarrar-se a uma velocidade estonteante. Corria o ano de 2021 quando vimos o ator camaleónico numa busca inesperada em “Pig – A Viagem de Rob“, e parece que foi ontem que estreou o bizarro “Dream Scenario” (2023), cujo papel de protagonista foi talhado à medida de Cage. Eis que surge, como uma sólida parede de betão, a comédia de ação “The Retirement Plan” (em português “O Plano de Reforma“). E é mais do que evidente de que ninguém puxou o travão.
Escrito e realizado por Tim Brown, o filme embrulha-nos em vidas ameaçadas, organizações criminosas e agentes do governo dos Estados Unidos da América. As almas em perigo são Ashley (Ashley Greene) e a sua jovem filha, Sarah (Thalia Campbell). A razão? Uma pen drive roubada. Eu sei, um clássico. Não importa o quanto avançamos na tecnologia, poucos dispositivos de armazenamento de dados serão tão eficazes (e perigosos) como as pen drives. Esta desventura leva-as de Miami até às Ilhas Caimão, paraíso onde vive o pai distante de Ashley, Matt (Nicolas Cage), a única pessoa capaz de as salvar.

Bem enterrada no desastroso aparato de “The Retirement Plan” está uma história de reconexão. Ashley reaproxima-se do seu pai e descobre as razões que levaram à sua ausência durante tantos anos. No entanto, qualquer vislumbre de arco dramático ou aconchego emocional é despedaçado pelo desempenho global do cinema de Tim Brown. Numa tentativa de floreado da loja dos 300, introduz todas as personagens com um plano fechado congelado à la banda desenhada, o respetivo nome e o rebelde efeito sonoro de um chicote. O tédio apodera-se da realização. Cada minuto parece cinco. Cada golpe soa a falso. As cenas de ação supervisionadas por Brown são de tal modo desajeitadas que chegam a rivalizar com o desinteresse dos diálogos.
É preciso uma certa dose de generosidade para montar uma defesa deste desfile de clichés do género de ação. Não faltam as voltas e reviravoltas, os capangas musculados e o seu cabecilha, bem como as localizações exóticas. O problema não está, naturalmente, nestas convenções, antes na maneira como elas se articulam no enredo. A escrita ofusca algumas personagens e desenvolve uma narrativa insípida, cansada de si própria. Não se deixe de trabalhar o trivial, mas, a fazê-lo, que seja com recreação, com valor de entretenimento, com a sua graça. Pior do que a mediocridade jocosa, só mesmo a mediocridade de cara cerrada.

O caso de “The Retirement Plan” tem a agravante de ser protagonizado por Nicolas Cage, aquele cuja carreira já deu inúmeras provas de prosperar no absurdo – basta espreitar “Mandy” (2018), do italiano Panos Cosmatos. No papel de assassino reformado, Cage procura algumas brechas de diversão: um movimento repentino; uma entoação mais rebuscada. Tentativas de contribuir para a animosidade das sequências ou fazer-nos sentir que está realmente algo de importante em jogo. São raras as vezes em que verdadeiramente o consegue. Muito por conta de um filme que não precisa de um plano, pois está prontíssimo para a reforma.
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