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“Eu cresci numa família unida. Provavelmente, sou um dos poucos músicos de rock que não tiveram uma vida fodida. Quer dizer, os meus pais divorciaram-se quando eu tinha sete anos e nós fomos criados sem dinheiro. Sobrevivíamos com muito pouco e, ainda assim, éramos as pessoas mais felizes do mundo.”


Dave Grohl

A biografia “Foo Fighters, Learning To Fly” (Editora Planeta, 2017, 271 páginas), do jornalista especializado em rock no Reino Unido, Mick Wall, traz o subtítulo “Biografia Definitiva Da Banda”. Já na apresentação, o autor esclarece que a banda é dirigida por um homem só: Dave Grohl. Assim, nada mais natural que contasse a história dos primórdios dos Nirvana, quando Dave tocava na banda Scream e de como foi a sua entrada para o grupo de Kurt Cobain.

À medida em que ia lendo o livro, ouvi Nirvana e percebi o quão angustiante são as letras e a constatação de que a sanidade mental de Kurt melhoraria bastante sem o mainstream. Exatamente a metade do livro de Wall é dirigida aos Nirvana.

O escritor e jornalista britânico Mick Wall

O que era intuição para mim se verificou como prova e verdade: o facto de Dave Grohl precisar de seguir com a sua vida, gravar um disco despretensioso e assumir os vocais e liderança de uma banda que existia para ele mesmo. Assim, à medida em que lemos o livro tomamos tento de toda a discografia dos Foo, pelo menos até ao ano de publicação do livro, e serve como guia para nos orientarmos ao longo desta brilhante carreira. Aquele ritmo de rock de garagem com hits clássicos para rádios FM e que proporcionaram a lotação de estádios, como o lendário estádio de Wembley (Londres) e tornar os Foo Fighters parte do primeiro ‘time’ do rock mundial.

Traços da personalidade de Dave são aventados, como a dificuldade para comunicar a dispensa de ex-integrantes, em um pouco caso que beirava à covardia. Perfeccionista com o seu trabalho, regravou toda a bateria do segundo disco, “The Colour and the Shape” (1997) e praticamente descartou o baterista William Goldsmith, humilhado pela forma com a qual foi destratado. Aí entra Taylor Hawkins (de quem já tratei aqui, por ocasião da sua trágica morte).

O portal abriu-se para mim para conhecer outras bandas mais obscuras, embrionárias e saber que Dave sempre foi e é fã dos Metallica. Cita o primeiro disco da banda de James Hetfield, “Kill’Em All” (1983), quase como um devoto (e quem não?) e até um pouco de ‘fofoca’ ficamos a saber, como a briga feia de Kurt Cobain com Axl Rose, a prima-dona dos Guns N’ Roses e da antipatia de Courtney Love (esposa de Kurt) com Dave – e as suas brigas declaradas.

Analisando a personalidade irrequieta de Dave percebe-se a necessidade de este sempre se propor a algo novo, daí as suas incursões para o cinema, para a produção, tocar com lendas vivas do rock tais como dois terços dos Led Zeppelin e Prince, e se permitir questionar a qualidade dos próprios trabalhos tentando e conseguindo retornar no tempo para produzir um álbum de garagem.

Taylor Hawkins, Nate Mendel, Dave Grohl, Pat Smear, Chris Shiflett e Rami Jaffee (da esquerda para a direita): Foo Fighters

Este disco foi-me sugerido pelo editor deste portal, Diogo Vieira, “Wasting Light” (2011), e o ouvirei em breve. Mesmo que centrado num homem só, duas personalidades conseguiam bater de frente. Uma delas foi o baterista Hawkins, que teve Dave como ama acompanhando-o durante o coma em 2001, quando quase veio a óbito. Antes do ocorrido, o biógrafo cita:

Taylor tinha se jogado. Heroína, calmantes, crack, tudo o que estivesse ao alcance. Dave tinha conversado com ele, mas o baterista estava descontrolado. Relembrando as imagens dos últimos dias dos Nirvana, quando era um estorvo estar perto de Kurt e de todos os seus ‘amigos’ viciados, Dave disse a Taylor várias vezes que estava preocupado. Mas Taylor estava viajando nos próprios sonhos, ainda jovem e famoso o suficiente para se sentir intocável, ele sabia o que estava a fazer, disse a Dave. Sem problemas!

Neste ano, na Colombia, a viagem foi fatal. Cito um arranca-rabo (discussão) entre os dois no trecho:

Houve uma outra briga entre Dave e Taylor no dia seguinte, poucas horas antes do horário em que os Foos deviam entrar no palco, a respeito de setlist, na qual Dave disse a Taylor que, se ele não tinha gostado, podia ir embora. Ao que Taylor respondeu que faria exatamente isso, logo após o show.

Um jovem Dave Grohl, à esquerda, com a sua nova banda chamada Nirvana – completa por Chris Novoselic (meio) e Kurt Cobain (direita)

Outra persona que se destaca pela discrição, pelo sorriso enigmático e quase andrógino é ele mesmo, Pat Smear. Desde os Nirvana, já percebíamos que era um sujeito são e discreto. Muito bom, não parece dar-se a muita importância, podendo trabalhar como consultor de moda num programa da MTV, e mesmo numa loja de discos, até receber a chamada de Dave Grohl recrutando-o para os Foo Fighters. Personalidade como a do baixista Nate Mendel é até engraçada: se observarmos bem, no palco mais se assemelha a um funcionário de banco discreto, mas sabe tocar o seu instrumento.

Muitas loucuras, algumas megalomanias, a tentativa de simplicidade de Grohl em simplesmente poder curtir a vida, o preço a pagar pelo facto de ter uma das mais lendárias bandas de rock do mundo, ser um “Ringo grunge” que pertenceu a outra lenda que foram os Nirvana, um puta músico que sempre foi estratégico para dar vazão à sua criatividade, e do caldo todo depreendemos uma prazerosa leitura.

Só um adendo: acredito que o epíteto biografia definitiva expressa na capa está longe de ser verdadeira. Muito se especula e se especulará ainda sobre Taylor Hawkins, os próximos passos da reunião dos Foo Fighters e dos novos projetos de Dave.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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