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Quando o lendário baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts, faleceu em agosto do ano passado, associaram as suas batidas suaves, ele formado em música clássica, ao coração da banda. Se Mick Jagger era a presença linguaruda e Keith Richards a alma como um todo, Watts era o classicismo em pessoa.

Escrevo sobre o coração para me referir a Taylor Hawkins, baterista dos Foo Fighters, encontrado morto num quarto de hotel em Bogotá (Colômbia) no último dia 25 de Março. Perplexo, postei no Facebook, cito:

Muito triste com a morte do baterista do Foo Fighters Taylor Hawkins, aos 50 anos. Mais uma tragédia na vida de Dave Grohl. Em 1994, quando era baterista do Nirvana, viu morrer Kurt Cobain.

O que amo no Foo Fighters e em especial Dave é o seguinte: não utilizou espólio algum da ex-banda e, com originalidade, soergueu uma das melhores bandas de rock do mundo.

O foco aqui é Taylor Hawkins e a imagem que sempre terei dele é a do baterista que marretava as baquetas (o cara tocava como um cavalo). Sorriso sempre largo e com todos os dentes à mostra, se divertia horrores e ousava até assumir os vocais.

Como sou distraído e não fico ligado a notícias, não sabia do Lollapalooza e do show do Foo Fighters no Brasil no domingo. Morre o homem. A obra fica. Taylor Hawkins, você é simplesmente foda!

Vamos destrincar um pouco? Assisti via YouTube ao espetáculo que a banda fez no Lollapalooza, no Chile, nesta tournée sul-americana que desembocaria no Brasil (incluindo Argentina, Paraguai e Colômbia). Só tive a certeza da excelência dos músicos Dave Grohl, Nate Mendel (baixista), Pat Smear (guitarras), Chris Shiflett (guitarras), Rami Jaffee (teclados) e Taylor Hawkins. É o típico concerto que te suga, caso se deixe levar e se renda por completo.

Afinal, mais de duas horas de concerto entremeando pausas e vocal à capela à mais completa “porradaria” exerce uma influência lisérgica no organismo. Quem sabe os psiquiatras descubram que o remédio para os catatónicos seja colocar o acometido em frente a uma potente caixa de som e fazerem tocar The Pretender? O comecinho balanceado embalará o sujeito, mas na explosão das guitarras e das batidas tresloucadas da bateria ou o sujeito acorda, ou fica surdo de vez.

O coração de Taylor Hawkins pesava 600 gramas na autópsia, tendo sido encontradas dez substâncias, entre maconha, opioides e antidepressivos. Mas não serei juiz do homem, limito-me a ser testemunha da lenda. E que carisma, que presença em palco! Assistir àquele magrelo louro cabeludo é tocante! A química com Dave (ele mesmo batera de formação) é incrível e logo atrás do vocalista, aquela figura louca trincando os dentes ao esporrar o seu instrumento.

Traços de personalidade? Ouvi depoimentos do quanto Taylor era simples e gente boa. Uma história emocionante se deu em Assunção (Paraguai), onde o espetáculo teve que ser cancelado devido a um temporal. Os Foo Fighters estavam no hotel e uma menina, Emma Sofia de 9 anos, baterista, de forma improvisada montou a sua bateria em frente ao hotel e começou a tocar clássicos dos Nirvana e dos Foo Fighters.

Taylor Hawkins e a fã paraguaia Emma Sofia, dois dias antes de ser encontrado morto

A notícia chegou até Taylor que se dignou a descer e a conversar com a garota, posando para uma foto. Lindo demais! Tudo de forma espontânea, o pai de Emma garantiu que o dia que seria de tamanha frustração para a filha se transformou no seu dia mágico. E certamente um dos últimos registros de fãs com Taylor.

Explorando um pouco mais a ideia de que morre o homem e fica a obra, os Foo Fighters, que cancelaram toda a sua tournée de 2022, sabem que será difícil um outro baterista superar o carisma de Hawkins. Dave Grohl, multiartista que é plástico nos seus projetos e que até publicou um livro, “O Contador de Histórias: Memórias de Vida e Música“, que lerei em breve, certamente repensará os mais de 25 anos da banda.

Taylor entrou para os Foo Fighters em 1997, após fazer uma digressão com a cantora pop canadiana Alanis Morissette. Para os leitores que tem pouca familiaridade com o conjunto, sugiro assistirem aos clipes divertidíssimos muito em voga nos fins da década de 1990, e numa setlist básica constarão verdadeiros hinos tais como Everlong, Times Like These, My Hero, Learn To Fly, Walk, These Days, All My Life, entre outros.

Escrevi este relato escutando a banda no volume alto. Um dia ainda virarei Beethoven…

Marcelo Pereira Rodrigues

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