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Quando escrevemos regularmente para uma publicação de outro país, neste caso analisar “Equador”, é justificado querer conhecer um pouco mais da sua história. De há uns tempos para cá, contar histórias de forma romanceada tem sido um modo interessante de se tirar a sisudez dos factos apenas e, aqui no Brasil, o jornalista e historiador Laurentino Gomes obtém um enorme sucesso com a sua trilogia “1808“, “1822” e “1889“; o seu mais recente livro é “Escravidão“.

Assim, peguei em “Equador” (Editora Companhia das Letras, 2011, 544 páginas), de Miguel Sousa Tavares intrigado com o nome de um país da América Latina. Mas não, Equador aqui é o meridiano na África onde se localizava a colónia de Portugal, São Tomé e Príncipe. A história passa-se no período entre 1905-1908 e coincide com o final da monarquia lusitana, que se daria em 1910.

O escritor português nascido no Porto, Miguel Andresen de Sousa Tavares

Mas vamos à trama: o protagonista é o advogado Luís Bernardo, um bon vivant de 37 anos que é chamado pelo rei, Carlos I, para ser governador da colónia em África. Ele estava a ter um caso com uma mulher casada e encontra o álibi perfeito para esta aventura; a sua atenção fora chamada pelo monarca após este ler contundentes artigos opinativos do advogado no jornal “Mundo”. A sua missão diplomática é aplacar a controvérsia criada pelos ingleses acerca da manutenção da escravidão em Portugal e isso geraria concorrência desleal no comércio internacional.

Observa-se aqui uma ironia costumeira: as leis “para inglês ver”. Entre o discurso oficial e a prática, muita coisa ocorre nos interstícios, sendo que índios angolanos são contratados em regime de quase escravidão. A hipocrisia britânica apresenta-se, uma vez que sabemos que eles não praticavam a sua humanidade e garantia de todos os direitos dos seus colonos indianos.

A narrativa flui e sentimos um estar fora, um abandono da vida urbana da metrópole para uma existência no meio de um oceano, numa terra quente, húmida e propensa a tempestades, com o ruralismo a apresentar-se em toda a sua extensão. Bernardo adapta-se surpreendentemente bem e encetará relações com o cônsul Inglês David Jamerson e com a sua fogosa esposa Ann, uma loura estonteante. Uma válvula de escape e um reencontro à civilidade, além das conversas protocolares salvaguardando os interesses das suas nações, vê-se nascer uma amizade verdadeira.

“Equador” foi adaptado para televisão em formato de minissérie, tendo esta sido exibida em 2008

Se bem que amigo não fura o olho do outro, o tórrido caso de amor dá-se entre o nosso protagonista e a mulher do cônsul. As cenas de sexo são muito bem trabalhadas e passam ao largo do vulgar. Sentimos o calor oriundo das relações e do tropicalismo da terra.

Compreendido como um romance histórico, mais romance que história, o enredo vai nos conduzindo pelas mãos e já pertencemos a este exílio quando se aproxima o final e ficamos intrigados com o desfecho da relação do trio. Descambaria para uma tragédia? Para uma relação a três esclarecida? Essas opções findam-se com o desfecho irónico que me fez lembrar uma anedota de um conhecido meu acerca do facto de as pessoas serem bastante crédulas. Afirmou este: “Marcelo, acredite, tem pessoas que acreditam em tudo, até nas suas próprias mulheres.”

Surpreendido com o desfecho, degustei cada página como se estivesse em frente a uma xícara de chocolate (afinal, a cultura do cacau em São Tomé e Príncipe é mote) e conheci horizontes, perspetivas e fiquei a par de uma história passada a limpo, escrita por um profissional que tem o dom de suscitar polémicas, entendendo-as como convites à reflexão. Indico este livro e espero que sintam o mesmo que eu: tesão em algumas cenas descritas.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3.5 out of 4.

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