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No final da I Guerra Mundial, década de 1920, imperava no mundo ocidental um sentimento de esperança e redenção. Paris, a “Cidade Luz”, era decantada como a terra dos artistas, dos escritores e dos intelectuais. Tudo regado a festas e a um sentimento de se aproveitar a vida ao máximo, como bem demonstrado numa das partes da película “Meia-Noite em Paris“, de Woody Allen. De modo que a novela “O Sol Também Se Levanta” (Editora Abril Cultural, 1971, 266 páginas), título da edição brasileira, de Ernest Hemingway (1899-1961), também capta bem esta atmosfera.

Jake é o narrador, um correspondente de um jornal na capital francesa. Inicialmente, o enredo abordará Robert Cohn, 34 anos, um ex-lutador de boxe e escritor que é carente de amizade e aproxima-se de Jake. Por vezes inconveniente, anseia viajar à América do Sul e é casado com Frances, mais até por conveniência. Ela é membro de uma das mais ricas famílias de Nova Iorque. Essa ânsia por aventuras é atenuada por constantes idas a cafés e botequins, sendo Paris pródiga deles. Aos poucos, o núcleo vai se expandindo e personagens interessantes surgem.

Uma delas é Brett Ashley, uma coquete estrepitosa que encanta logo de caras o sorumbático Cohn, mas que chega acompanhada a um dos bares do conde grego, o poço de gentilezas e mesuras Mippipopolous. E quer tome champanhe ou outras bebidas, o clima de festa é histérico e garantido. Embora o narrador seja apaixonado por Brett, sente-se emasculado devido a um ferimento de guerra, contudo deseja aproveitar a vida naquilo que ela lhe possa oferecer.

Corey Stoll interpreta o personagem do escritor Ernest Hemingway na longa-metragem de 2011, “Meia-Noite em Paris”

Mike e Bill são outros amigos de Jake e planeiam juntos uma viagem a Espanha, no verão. Pesca e acompanharem de perto a semana de festas em Pamplona. Saindo da estação de comboio Orsay, hoje transformada num lindo museu, o grupo de amigos se encontrará num hotel espanhol, mas antes Jake e Bill irão pescar trutas no lago em Burgete. Linhas, anzóis, caixas de moscas, os preparativos são enfadonhos para pessoas como eu que não gostam de pescar, imaginem ler sobre. Mas é passável, dá para descansarmos com a vida boa e os não afazeres dos nossos amigos.

Quando o grupo se reúne novamente e parte para Pamplona, aí os conflitos se estabelecem, pois a paixão doentia de Robert Cohn por Brett beira o ridículo. Mike não aguenta e bêbado, diz verdades ao ex-boxeador para que deixasse de ser um sujeito que vive paparicando, destes que “segura a cabrita para os outros mamarem”. Sendo politicamente incorreto na avaliação de muitos atualmente, Lady Ashley é uma prostituta e bem se dá conta disso, em intimismos a posteriori.

A semana em Pamplona é de uma selvageria e estupidez incríveis. Dane-se quem gosta de touradas, o certo é que não posso respeitar maldades contra os animais e senti-me triste quando bois, cavalos e touros eram sacrificados para o deleite do populacho. Foi uma leitura feita com engulhos. A minha alegria dava-se quando um touro em desabalada carreira pelos corredores de Pamplona chifrava e até matava um imbecil. Um esgar de sorriso acompanhava a minha leitura.

O escritor norte-americano Ernest Hemingway

Entre bebedeiras, discussões, amizades e intrigas, a nossa coquete irá apaixonar-se por um mancebo toureiro chamado Pedro Romero. Hilária a cena em que Cohn, desancado mais uma vez, distribui sonoros bofetões em Mike e Jake, estendendo-lhe as mãos para se desculpar pela reação intempestiva. Não nos esqueçamos que o sujeito era lutador de boxe. Se a vida é para ser vivida em toda a sua intensidade, a festa espanhola de sete dias faz esgotar até a paciência do leitor e quase me cheguei a sentir bêbado e cansado também.

Diálogos ágeis, estilo jornalístico na forma de composição, personagens com psicologias não reveladas profundamente, autobiográfico até não poder mais (vale a pena inteirarmo-nos do núcleo de amigos do seu autor), o livro permite uma leitura de uma sentada (como se diz). Li em três dias e foi uma experiência gostosa e etílica, num hedonismo que tinha tudo para terminar com o espectro de outra guerra no porvir, antecipada pela queda da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, que alertou ao mundo à necessidade de outras preocupações.

Costumo afirmar que a escrita de Hemingway é uma escrita para machos, destes que mascam fumo, coçam o saco e cospem no chão. Mas é uma delícia participar de alguns encontros e conversas regadas a cervejas e tira-gostos. Mais uma experiência aprazível numa novela de Hemingway, a exemplo de “Adeus Às Armas“, “As Neves de Kalimanjaro“, “O Velho e o Mar” e outras.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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