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“In the Line of Fire” (1993) conta a história de um agente dos Serviços Secretos, Frank Horrigan (Clint Eastwood), que é atormentado por um assassino, Mitch Leary (John Malkovich), que tem informações detalhadas sobre ele, incluindo o facto de Frank não ter conseguido salvar a vida do presidente John F. Kennedy, há trinta anos atrás. O agente dos Serviços Secretos, que está a investigar uma ameaça ao atual presidente, está determinado a não deixar que a história se repita, e é isso que espoleta o desenrolar da história, enquanto motivo narrativo. O filme é escrito por Jeff Maguire e realizado por Wolfgang Petersen.

De facto, é deveras interessante a forma como o filme aborda um tema que durante muitos anos foi visto como um tabu nos Estados Unidos da América, nomeadamente, a proteção dada ao presidente. Existe uma grande controvérsia relacionada com os serviços secretos, em concreto, em como agiram no dia do assassinato de Kennedy, levantando a questão da possível existência de falhas e falta de preparação.

Nesse sentido, Frank começa a investigar uma ameaça ao presidente, após descobrir um quarto repleto de referências ao assassinato de Kennedy. Após entender esta clara situação de risco, Frank percebe que o homem que está por detrás de tudo isto tem bastante facilidade em mudar de aparência, além de ser conhecedor de todo o seu (mais sombrio) passado.

Mitch Leary (John Malkovich)

Efetivamente, o trabalho que “In the Line of Fire” faz em conseguir que esta ameaça real se transforme, no fundo, num jogo psicológico, a partir do qual o nosso “vilão” sente, acima de tudo, uma admiração profunda por Frank, respeitando imenso a sua história e o seu passado. Além disso, Mitch tem dentro de si uma veia de assassino que não consegue explicar, além da sua experiência enquanto ex-agente da CIA.

Ele não encontra grande sentido para a sua existência e está disposto a sacrificar a sua vida pela morte do presidente dos EUA. Pura e simplesmente porque sim, mas essencialmente para mostrar – e aí a narrativa faz um trabalho muito forte do ponto de vista metafórico – que a nossa vida, no fundo, é totalmente sem sentido.

Frank, por outro lado, também tenta encontrar algum sentido para a sua existência, depois de ter ficado severamente associado, por negligência, ao assassinato de Kennedy, de tal forma que a sua esposa não conseguiu lidar com isso e o abandonou, juntamente com os seus filhos. Além disso, o agente caminha para a reforma mas não quer abandonar o trabalho no terreno, uma vez que não tem paciência para trabalho de escritório.

Decerto, Frank, com toda esta situação, vê-se obrigado a lidar com os fantasmas do seu passado, fantasmas esses de arrependimento profundo por, na altura do assassinato de Kennedy, não ter agido mais prontamente – carregando consigo, até hoje, toda essa dor e tudo aquilo que espoletou posteriormente. Portanto, a influência psicológica que Mitch tenta exercer sobre Frank ao longo da história proporciona momentos deveras atrativos, em matéria de narrativa.

Outra personagem que tem um papel bastante revelante no explorar do lado mais sentimental de Frank – que se revela, em certos momentos, bastante fechado quanto ao seu passado, motivado pelo seu grande trauma – é a agente Lilly Raines (Rene Russo). Inicialmente, parece que o filme vai explorar uma certa parceria amorosa entre eles, aprofundando também, entre eles, a diferença de idades e de perspetivas de trabalho, mas ocasionalmente a narrativa deixa isso de lado para que Frank se conecte, acima de tudo, com o nosso “vilão”.

Frank Horrigan (Clint Eastwood)

No entanto, há certas cenas de tensão entre Frank e Lilly que são cinematograficamente excelentes e que enriquecem deveras a produção como um todo. Além disso, há a destacar a banda sonora sublime de Ennio Morricone, que consegue criar uma atmosfera completamente absorvente e condizente com o estado de espírito do nosso protagonista.

Assim, e num filme onde as falhas parecem particularmente inexistentes, estamos perante uma história de redenção, de superação, de força e resiliência, resiliência essa que exigiu ao nosso protagonista, Frank, imensa coragem para abraçar os demónios do seu passado e para os enfrentar, de frente, dando o corpo às balas (emocionais).

A destacar, de forma profunda, temos a interpretação espetacular de John Malkovich, que lhe valeu a nomeação de Melhor Actor Secundário nos Óscares de 1994, e ainda um argumento – igualmente nomeado – que teve a capacidade de construir uma história que, do princípio ao fim, apresenta uma coesão emocional e misteriosa muito forte e que, em conjunto, fazem deste “In the Line of Fire”, “Na Linha de Fogo” em português, um dos filmes mais completos da década de 1990.

Clint Eastwood mostra-nos que a verdadeira arte do cinema está nos detalhes, de tal forma que “um olhar pode ser tão eficaz como uma arma” (Frank Horrigan). Além disso, num mundo que pode ser bastante cruel para um homem íntegro e honesto, o que o salva, de facto, são os seus valores e a sua integridade.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

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