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Aqui no Barrete, escrevi uma análise acerca do ótimo “Travessuras da menina má“, do peruano Mario Vargas Llosa. Neste livro com caráter autobiográfico, o autor empresta à personagem a sua vivência pelo circuito Lima – Madrid – Londres – Paris – Tóquio. Agora é chegada a vez de apresentar aos leitores uma outra linda história do Nobel.

Reedição do distante ano de 1977, “Tia Julia e o escrevinhador” (Editora Alfaguara, 2007, 360 páginas) é formidável! Llosa empresta a sua visão debochada para narrar as peripécias de um aspirante a escritor, Mario Varguitas, que sonha viver numa água-furtada em Paris, mas encontra-se, aos 18 anos, a estudar o insonso curso de Direito em Lima, a capital do Peru. Comentário relevante é que numa entrevista concedida à TV Futura, Vargas Llosa chamou a atenção para uma pesquisa feita na capital peruana e que demonstrou que mais de 60% da população jovem sonhava em mudar-se para a Europa.

Ele fez uma analogia com todo o restante da América Latina e entendeu essa necessidade, ainda mais para os abnegados que sonham com uma carreira literária. Como latino-americano, afirmo que ter os meus textos lidos por vocês do Barrete me enche de orgulho, estendendo a teia por mais alguns países europeus. De certa forma, suspeito que todos sonhamos com o estilo de vida do escritor Julio Cortázar (1914-1984), argentino que chegou a passar sérias dificuldades em Paris, mas aconteceu por lá e hoje é tido como um dos grandes autores do século XX. Em breve farei uma crítica sobre ele aqui.

O escritor Julio Cortázar

Voltemos então a “Tia Julia e o escrevinhador”: Varguitas é um escritor que trabalha numa rádio popular (AM) e que mora com os avós, sem a mínima vocação para a Jurisprudência. Trabalha redigindo boletins de notícias que são lidos no ar pelo tragicómico Pascual, sempre hiperbólico em nas narrativas. Aqui, remeto à minha breve experiência de ter tido um programa de literatura numa rádio popular da minha cidade. Era cada coisa tosca que eu presenciava. Não aguentei e pedi para sair.

Pedro Camacho, autor de radionovelas populares, é um boliviano que tem ojeriza a argentinos, cito:

Já encontrou argentino na sua vida? Quando se encontrar com algum, mude de calçada, porque a argentinidade, assim como o sarampo, é contagiosa.

E que surpreende pela dedicação austera na execução dos trabalhos, o que ocasionará a esclerose do seu cérebro movimentado. Varguitas toma Camacho como referência e daí se estabelece uma amizade interessante, a bem da verdade, Camacho não demonstra ter apreço e afeição por ninguém, bastando-lhe o trabalho.

Tia Julia é a protagonista dos amores de Marito Varguitas. Sendo sua tia (na verdade um frágil parentesco) e estando com os seus experimentados 32 anos, a balzaquiana chega a Lima sonhando encontrar um bom partido, ela que se houvera divorciado, pois o bom marido não “dava no couro”. Não sei se esta expressão é entendida em Portugal, mas significa que o esposo não atende aos anseios sexuais da sua esposa. Os próximos passos serão a divertida teia de relações entre Julia e o narrador, num caso de amor tão efusivo quanto surpreendente.

Varguitas tem muito com o que se preocupar: a questão financeira precária, um sonho frustrado de ver um conto seu publicado no suplemento dominical de um jornal, o facto de ter uma família para lá de tradicional e culminando no pai que volta dos Estados Unidos para resolver a situação insustentável do enlace matrimonial entre o seu filho e a “corruptora de menores”. Esse amor destinado ao fracasso, aos olhos de quase todos, sobressai-se por um bom tempo e no último capítulo um olhar saudosista do narrador que descreve as minúcias de um final que passa ao largo de ser feliz, traz o atestado contraditório que é a própria vida.

O escritor chileno Mario Vargas Llosa

“Tia Julia e o escrevinhador” é um belíssimo enredo recheado de ótimas passagens humorísticas, intercalando contos diversos dentro dos 20 capítulos muito bem escritos. Um livraço! De Llosa, sugiro lerem também “Os Chefes, A Cidade e os Cachorros“; “Pantaleão e as visitadoras“; “Conversa na Catedral” e “Elogio da Madrasta“. Um dos maiores intelectuais do nosso tempo, escreve para o jornal El País, de Espanha. Despeço-me com uma passagem onde observarão a extensa agenda do nosso protagonista.

Seu exílio chileno durou um mês e quatorze dias. Foram, para mim, seis semanas decisivas, nas quais (graças a gestões de amigos, conhecidos, colegas de faculdade, professores, que procurei, a quem implorei, incomodei, enlouqueci para que me dessem uma mão) consegui acumular sete trabalhos, inclusive, claro, o que tinha na Panamericana. O primeiro foi um emprego na biblioteca do Clube Nacional, que ficava ao lado da rádio; a minha obrigação era comparecer duas horas diárias, entre os boletins da manhã, para registar novos livros e revistas e fazer um catálogo das velhas já existentes. Um professor de história da San Marcos, em cujo curso eu tinha tido notas excecionais.

Contratou-me como seu ajudante, à tarde, entre três e cinco, em sua casa de Miraflores, onde eu fichava diversos temas nos cronistas, para um projeto de uma “História do Peru”, na qual ele se encarregava dos volumes da Conquista e da emancipação. O mais pitoresco dos novos trabalhos era um contrato com a Beneficência Pública de Lima. No Cemitério Presbiteriano Maestro, existia uma série de quadras, da época colonial, cujos registos se tinham extraviado. A minha missão consistia em decifrar o que diziam as lápides desses túmulos e fazer listas com os nomes e datas. Era uma coisa que podia realizar à hora que quisesse e pela qual me pagavam avulso: um sol por morto.

Eu fazia isso toda a tarde, entre o boletim das seis e El Panamericano, e Javier, que a essa hora estava livre, costumava acompanhar-me. Como era inverno e escurecia cedo, o diretor do cemitério, um gordo que dizia ter assistido em pessoa, no Congresso, à posse de oito presidentes do Peru, emprestava-nos umas lanternas e uma escadinha para poder ler os nichos altos. Às vezes, brincando que ouvíamos vozes, lamentos, correntes e que víamos formas esbranquiçadas entre as tumbas, conseguíamos assustar-nos de verdade. Além de ir duas ou três vezes por semana ao cemitério, dedicava a essa ocupação todas as manhãs de domingo. Os outros trabalhos eram mais ou menos (mais menos que mais) literários.

Para o suplemento Dominical do El Comercio fazia todas as semanas uma entrevista com um poeta, romancista ou ensaísta, numa coluna intitulada ‘O homem e sua obra’. Na revista Cultura Peruana escrevia um artigo mensal, para uma seção que inventei: ‘Homens, livros e ideias’, e finalmente, outro professor amigo encomendou-me redigir para os postulantes da Universidade Católica (apesar de eu ser aluno da rival, San Marcos) um texto de educação cívica; todas as segundas-feiras tinha que lhe entregar, desenvolvido, alguns dos assuntos do programa de admissão (que eram muito diversos, uma gama que abrangia desde os símbolos da pátria até a polémica entre indigenistas e hispanistas, passando pelas flores e animais nativos).

Com esses trabalhos (que me faziam sentir, um pouco, concorrente de Pedro Camacho) consegui triplicar os meus ganhos e juntar o suficiente para duas pessoas poderem viver. Em todos eles pedi adiantamento e assim tirei do prego a minha máquina de escrever, indispensável para as tarefas jornalísticas (embora muitos artigos eu fizesse na Panamericana), e desse modo, também a prima Nancy comprou algumas coisas para equipar o apartamento alugado que a dona entregou, de facto, 15 dias depois.

Foi uma felicidade a manhã em que tomei posse daqueles dois cómodos, com o seu banheiro diminuto. Continuei a dormir na casa dos meus avós, porque decidi inaugurá-lo no dia em que Julia chegasse, mas ia para lá quase toda noite, redigir artigos e elaborar listas de mortos. Embora eu não parasse de fazer coisas, de entrar e sair de um lugar para outro, não me sentia cansado nem deprimido, e sim, ao contrário, muito entusiasmado, e creio mesmo que continuava a ler como antes (embora só nos inúmeros autocarros e lotações que tomava diariamente).

Trecho do livro

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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One thought on ““Tia Julia e o escrevinhador”: Mais um excelente romance

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