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Porque A Arte Somos Nós

Sempre que vou às estreias de Woody Allen no cinema, percebo que o público se ri em momentos variados, não necessariamente nos momentos certos definidos pelo género de humor barato, pejorativamente chamado de “pastelão”. Com ironia fina e frases cortantes, em passagens que não se entregam fáceis, é sempre um gosto assistir aos seus dramas, comédias e afins. Eis que me chega às mãos um dos seus livros, “Cuca Fundida” (Círculo do Livro, 139 páginas), que foi originalmente publicado em 1971, a partir de contos que escreveu para a prestigiada revista New Yorker. Vamos passear por alguns deles?

Em “O Cara”, somos apresentados a um detetive particular que recebe a incumbência de uma loura ‘boazuda’ para investigar a existência de Deus. A narrativa passeia pela História da Filosofia, mas logo ficamos a saber que se trata de menções simplistas e engraçadas, e a minha espera por seriedade esvai-se, lembrando-me que estava a ler Woody Allen.

Em “A morte bate à porta”, é notória a influência do clássico de Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo” (1957). A vida é mesmo uma droga, logo no momento em que um dono de confeções fecha um contrato lucrativo com um pool de 50 lojas, é visitado pela Dona Morte. Na ausência do xadrez, o espirituoso comerciante enrola a Ceifadora por intermédio de uma partida de biriba (baralho), chateado ainda pelo facto de a Intrusa ter entrado pela janela do seu quarto, amassando a calha. Hilariante!

“O Sétimo Selo” (1957)

Em “Minha filosofia”, observem a verve do autor no seguinte trecho que inicia o texto, cito:

Querem saber como comecei a desenvolver a minha filosofia? Foi assim: a minha mulher, ao convidar-me para provar o primeiro suflê da sua vida, deixou cair acidentalmente uma fatia dele no meu pé, fraturando-me com isso diversos artelhos. Médicos foram chamados, raios X tirados e, depois de examinado do tornozelo aos pés, mandaram-me ficar de cama durante um mês. Durante a convalescença, dediquei-me ao estudo dos maiores pensadores ocidentais – uma pilha de livros que eu havia reservado justamente para uma oportunidade dessas. Desprezando a ordem cronológica, comecei por Kierkegaard e Sartre e depois passei rapidamente para Spinoza, Hume, Kafka e Camus. Não me entediei nem um pouco, como supunha.

Ao contrário, fiquei fascinado pela lepidez com que esses génios demoliam a moral, a arte, a ética, a vida e a morte. Lembro-me da minha reação a uma observação (como sempre, luminosa) de Kierkegaard: ‘Toda relação que se relaciona consigo mesma (ou seja, consigo mesma) deve ter sido constituída por si mesma ou então por outra’. O conceito trouxe lágrimas aos meus olhos. ‘Puxa vida!’ pensei, isso é que é ser profundo! (Eu, por exemplo, sempre tive dificuldades na escola com aquele clássico tema de composição, ‘O meu dia no jardim zoológico’).

É verdade que a frase continua completamente incompreensível para mim, mas que importava isso, desde que Kierkegaard se estivesse divertindo? De súbito, convencido de que a metafísica era a obra que eu estava destinado a escrever, tomei papel e lápis e comecei a rascunhar as minhas primeiras reflexões.

A saber, desconfio que a frase metafísica tenha sido proferida pelo Kierkegaard, exceto se ele fosse um maconheiro hippie metido a filósofo.

No conto “A história de uma grande invenção”, lemos sobre o Conde de Sanduíche, precursor das sanduíches e da atual consagrada marca McDonald’s. O passo-a-passo para o vir a ser da guloseima exigiu bastantes experimentações e colocações por cima ou por baixo das fatias de queijo. Um conto que dá vontade de sair do regime e pedir um Big Mac.

Uma ironia cortante lê-se em “Como realfabetizar um adulto”. O escritor brinca com estes folhetos que entopem a nossa caixa de correio, ofertando-nos cursos ao fim-de-semana e de curta duração. Oferta-se de tudo um pouco: Teoria económica; História da civilização europeia; Introdução à psicologia; Psicopatologia; Filosofia I; Filosofia XXXIX-B; Nova matemática; Astronomia fundamental; Biologia moderna; Leitura dinâmica; Musicologia III; Apreciação musical; Como escrever uma peça; Introdução à assistência social e Yeats & higiene.

O cineasta e escritor Woody Allen

“Correspondência entre Gossage e Vardebedian” é incrível. Eles estão numa acirrada disputa de xadrez, sendo que um aventa cavalos, torres e rainhas onde simplesmente não as têm, sendo advertido pelo opositor que lhe esclarece isso e, pacientemente, aventa a eventuais lapsos na memória do missivista. Agora imaginem a dificuldade de se manter uma partida de xadrez com uma duração de meses e guiadas por correspondências confusas! Só Woody para nos possibilitar esta cena.

“Os anos 20 eram uma festa” antecipa a trama do aclamado filme “Meia-Noite em Paris” (2011). Esse hiato de tempo de quatro décadas faz-nos observar que certas ideias em determinado momento não vingam, mas que guardadas para um momento de pouca ou nenhuma inspiração, acontecem. Como é bom estar ao lado de Gertrude Stein, Hemingway, Picasso e do casal Fitzgerald novamente!

“Conde Drácula” é simplesmente fantástico! Então o vampiro resolve cear na residência do padeiro e da sua mulher. Bate à porta e quando o recebem, fica a saber que chegara antes do horário, e que na verdade, o que estava ocorrendo era apenas um eclipse e passaria em dois minutos. “Estou frito!”, pensa o visitante. Como se não bastasse, a casa não tem cortinas e que remédio encontra a não ser esconder-se no armário, numa excentricidade que chama a atenção dos anfitriões, mais o prefeito e a sua mulher que chegam e pedem incansavelmente para que o conde saia do esconderijo.

Outros assuntos são tratados em alguns contos, como histórias da Máfia, cultura e religião judaica e memórias de algumas personalidades fictícias, como a do barbeiro de Adolf Hitler.

Uns contos excelentes, outros nem tanto, mas o certo é que o saldo foi positivo, pois permitiu-me num final de semana deleitar-me e rir com momentos improváveis, a exemplo do que já faço ao assistir a este sujeito engraçadíssimo que atende pelo nome de Woody Allen.

Deixo a dica de procurarem na Internet alguns textos do seu autor. Raramente o faço, por privilegiar o formato impresso, mas neste caso sugiro que, talvez devido a não encontrarem mais o exemplar, que utilizem este expediente.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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