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“A gata do Dalai Lama” é um romance escrito por David Michie e conta-nos a história de uma pequena gata que foi salva pela Sua Santidade Dalai Lama e, assim, se tornou a sua companheira. A palavra-chave deste livro é, sem dúvida, felicidade. Uma pequena gata prestes a morrer foi parar às mãos do Dalai Lama e deparou-se com um mundo completamente diferente que, para ela, rapidamente se tornou a sua casa. A magia reside no facto de os ensinamentos do budismo tibetano serem comprimidos num pequeno livro e chegam até ao leitor muito subtilmente através das vivências da nossa Rinpoche (uma das alcunhas da nossa protagonista, que significa “preciosa”).

O primeiro grande ensinamento surge justamente quando esta é salva e ninguém entende porque é que Sua Santidade decidiu resgatar uma gata vadia. A isto, Dalai Lama responde que devemos cuidar de todos os seres conscientes porque partilhamos todos os mesmos dois desejos básicos: desejo de desfrutar da felicidade e o desejo de evitar o sofrimento. Os outros ensinamentos vêm lentamente e subtilmente sem nos darmos conta, acompanhando sempre a experiência da GSS (“Gata de Sua Santidade”) com o mundo exterior – aquele que ela vai explorando – e o mundo interior – relativo ao que ela vai sentindo.

O líder espiritual Dalai Lama

O mais belo da literatura, da vida até, é a capacidade que as coisas mais singelas têm de nos provocar as maiores ondas de amor. Um raio de sol, um sorriso espontâneo, uma palavra carinhosa; a magia deste livro está nestas pequenas coisas e no saber identificá-las e senti-las. A conexão com o divino – seja de que religião for – está na fé interior, no acreditar sem ver, no acreditar sentindo.

Frank, dono de um restaurante perto do templo, rapidamente se apercebe disso. Este sempre se gabava perante os turistas dos ensinamentos que havia recebido e dos títulos que por isso ganhou e, no entanto, por dentro, sentia-se mais longe da sua fé do que nunca. Até porque esse acreditar é interior e pessoal, duas pessoas não sentem o mesmo, assim como duas pessoas não têm uma mesma ligação com aquilo em que acreditam.

A preciosa do templo vai viver momentos de angústia, tristeza, inveja e raiva como qualquer outro humano e vai aprender a lidar com isso através do cultivo das qualidades interiores, começando pela atenção consciente – que, muito vagamente, significa viver o presente e senti-lo conscientemente – e passando pela generosidade, a igualdade e a bondade.

Um aspeto muito peculiar deste livro reside na ambiguidade entre como se vive a vida no restaurante de Frank e como se vive no templo: dois lugares tão próximos e ainda assim tão distantes. A nossa gata habituou-se a ver os monges meditar e a levar a vida com uma paz e tranquilidade acolhedoras, ao passo que no restaurante tudo era apressado, todos cultivavam a felicidade procurando-a nas coisas exteriores, nas coisas imediatas.

O escritor David Michie

Mesmo perto de um lugar tão sagrado, os turistas não eram capazes de largar as tecnologias e as distrações para apreciarem onde estavam. Por isso mesmo, este livro ensina-nos em como encontrar um significado no meio de um mundo materialista e tão intenso como é aquele em que vivemos.

É uma obra que nos faria lembrar o principezinho que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos” e que “só se vê bem com o coração“. É a simplicidade do que para tantos é complexo, é o possível que para tantos é impossível, é o acreditar sem saber e apenas sentir. As palavras de David Michie não nos falam de religião nem nos pregam dogmas, em vez disso falam-nos de amor, de felicidade plena, das verdadeiras causas dessa mesma felicidade. No fundo, aprendemos a apreciar aquilo que está diante dos nossos olhos, o que é suficiente para sermos felizes.

Este livro foi uma prenda na minha vida e caiu nas minhas mãos sem eu sequer ter intenção de o adquirir, porque às vezes é mesmo assim, as coisas chegam e basta aceitá-las com amor e tudo correrá bem. Como disse Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido“.

Lorena Moreira

Rating: 4 out of 4.

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