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No seio de vários cineastas emergentes em língua portuguesa está o brasileiro Lucas Tavares. Dotado de um olhar fotográfico e com entusiasmo pelo cinema documental e de paisagem, o jovem artista é um exemplo da ética e consideração pelas imagens em movimento. Nas suas palavras: “a única responsabilidade que vejo no cinema diz respeito à relação entre quem filma e quem é filmado“, e utiliza essa máxima ao longo do seu corpo de trabalho.

Apesar de não ser um cinéfilo desde terna idade, Lucas completou a Licenciatura em Cinema e Audiovisual na Escola Superior Artística do Porto (ESAP), tirou uma Especialização em Cinema e Cultura Visual na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e está a terminar de momento o Mestrado em Cinema na Universidade Beira Interior (UBI). É caso para dizer que o cinema lhe corre nas veias!

Já realizou quatro curtas-metragens, sendo que a última, “Cores de Outono” (2020), levou o cineasta a ganhar o Prémio de Melhor Realizador Português no Festival de Curtas Vila do Conde. Este foi o mote para que OBarrete abordasse o artista e o entrevistasse, ficando a conhecer mais sobre o autor, a obra e a pessoa.

“Cores de Outono”

Tendo uma Licenciatura, uma Especialização e estando a finalizar também um Mestrado em Cinema é possível dizer que tens dedicado a tua vida às imagens em movimento. Quando é que começou esta curiosidade pela 7.ª Arte?

R: Não fui necessariamente uma criança cinéfila, muito menos um adolescente cinéfilo, tenho lembranças vagas e espaçadas de algumas experiências marcantes em salas de cinema, mas nunca tive o hábito regular de ver filmes para além de clássicos culturais como Harry Potter, entre outros. O meu sonho sempre foi estudar astronomia, e todo o meu percurso escolar foi nesse sentido, seguindo o ensino científico e focando em disciplinas como a Física. Quando finalizo o 12.º ano e tenho de fazer um exame de inglês, decido que iria estudar para o exame afundando-me na língua através do cinema. Tinha alguns amigos cinéfilos, em especial um que pretendia estudar cinema, que me recomendava filmes regularmente e eu nunca os via.

Quando comecei a assistir acabei por me apaixonar por cinema. Hoje são filmes que na sua maioria não gosto particularmente, nem tenho grande interesse em rever, mas serviram para esse primeiro deslumbre. Para a decisão de seguir esse percurso académico, autores como Christopher Nolan, Tarantino e Kubrick contribuíram bastante, mas acho que mais importante que o despertar da curiosidade, é o manter da curiosidade. Isso passa pelo meu percurso. Se no início me mantinha pelo cinema comercial e cinema de autor, chego ao final da Licenciatura cansado e esgotado desse formato, tendo visto bastante coisa, e feito pequenos projetos dentro desse formato.

E é quando descubro o cinema documental que me vem oferecer um mundo novo de experiências e possibilidades, e ao longo da especialização vou descobrindo cinema experimental. Cada passo dessa viagem é um redescobrir e um reapaixonar pelo cinema, em que a cada passo me encontro mais no que faço e quero fazer.

O teu cinema é fundamentalmente paisagístico e cuidado ao nível do enquadramento. Filmes como “Tu Pescas, Eu Filmo” (2019) e “Cores de Outono” (2020) são exemplos disso mesmo. Quais são as inspirações cinematográficas que te movem para este género de cinema?

R: Desde o início do meu percurso sempre me fascinei por pequenos deslumbres de cinema paisagístico, no início pequenos momentos inseridos em filmes narrativos, como por exemplo a famosa cena da casa em chamas em “Mirror” do Tarkovsky, ou então os pillow shots de Yasujirõ Ozu. Estes pequenos momentos de deslumbre ainda são referencias que trago comigo, mas sentia sempre a falta dessas paisagens se tornarem o total do filme, e conforme fui percebendo que meu interesse era esse cinema de paisagem. Fui descobrindo novas referências e mais próximas do que gosto de ver e fazer.

Nesse primeiro contato com o cinema documental foram as chamadas sinfonias urbanas, cinema de paisagens urbanas com grande foco musical, filmes como “Douro Faina Fluvial” e “O Pintor e a Cidade“, do Manoel de Oliveira, ou “Chuva” do Joris Ivens, ou “O Homem da Câmera de Filmar” do Vertov, foram talvez meu despertar dentro desse cinema de paisagem. Hoje em dia afasto-me um bocado dessas sinfonias. Há quase uma uniformidade nos seus discursos.

Talvez a que traga ainda mais perto do coração e talvez seja a menos sinfónica delas, é “O Pintor e a Cidade”, do Oliveira. Depois desse despertar das sinfonias urbanas comecei a procurar mais cinema de paisagem, diferentes posições dentro dele e hoje as minhas maiores referências talvez sejam autores como Peter Hutton ou James Benning, que são nomes incontornáveis nesse género de paisagem, ou autores mais contemporâneos como a Debora Stratman ou em Portugal os duos Hiroatzu Suzuki e Rossana Torres, e Daniel e Clara.

“Zerkalo” (“Mirror”), Andrei Tarkovsky (1975)

No documentário “Dona Camélia” (2018) notasse, além de uma preocupação estilística, a vontade de comentar sobre a experiência da emigração e de dar a voz ao povo. Sentes que contar a história das nossas gentes é uma responsabilidade do cinema que crias?

R: Acho que a única responsabilidade que vejo no cinema diz respeito à relação entre quem filma e quem é filmado. Dizer da forma que colocas é algo demasiado grandioso e inalcançável. “Dona Camélia” é um filme pequeno em duração e escala, acho que a história dela não chega nem perto de uma experiência geral da imigração brasileira. Acredito que o filme possa falar tanto dela como de mim.

A minha experiência de imigração não é de todo próxima à dela, mas também não chega perto da experiência geral que vejo, mas há ali sentimentos de insatisfação e de falta de pertença que me são muito próximos, para além de quase uma atitude existencialista quanto à vida, de se dançar durante o apocalipse.

Acho que houve num período um projeto inacabado em que procurava realmente essa experiência da imigração brasileira. Esse projeto, mesmo em formato inacabado, teve duas sessões e foram terríveis. Percebi que não há de todo uma proximidade entre o que quero dizer e o que os portugueses (de forma geral em duas pequenas sessões) querem ouvir. Não falo aqui de conservadores ou de ultranacionalistas, falo de pessoas com ideais liberais na sua maioria de esquerda, de anarquistas e de membros de partidos políticos portugueses. Vive-se um negacionismo violento aqui, e apontar o dedo e dizer que todos contribuem para esta situação é pior que lhes dar um tiro.

Acredito que essa batalha não é feita no cinema, o Pedro Costa há 20 anos que filma diferentes experiências da imigração cabo-verdiana, filmes incríveis e necessários, e há 20 anos que muita gente escolhe bater palmas aos filmes e não mover um dedo para melhorar a situação das pessoas que os filmes representam. É principalmente um sentimento de frustração, em no fundo sonhar que o nosso trabalho poderia mudar algo, poderia levar pessoas a reflexões sobre atitudes que tomam no dia-a-dia ou sobre a forma como a comodidade que se vive cá foi e é construída.

Mas as questões que surgem são sobre a ética da representação, sobre a universalidade do discurso, ao invés da situação em si. O meu filme estava mau, tinha vários problemas que eu próprio era o primeiro a admitir, mas nem por esses problemas passava a discussão.

Um dia, com energias recarregadas, talvez volte a esse projeto.

Plano de “Dona Camélia”

Qual é o teu período da História do Cinema preferido e quais são os três filmes que mais aprecias desse mesmo período?

R: Sou muito grato a poder viver e produzir no momento e lugar que produzo. Sou muito grato a poder acompanhar de perto um momento da história do cinema português que acho muito bonita. De certa forma, esta resistência documental, seja ela vivendo no seu sentido mais clássico do género, ou transgredindo fronteiras, é um período ainda sem nome e ainda sem fim. Temos realizadores que são reconhecidos e celebrados tanto cá dentro como lá fora, e que mesmo com todas as adversidades fazem obras maravilhosas. A possibilidade de poder conhece-los, ouvi-los, perguntar diretamente e de ter próximo a mim realizadoras programadoras e artistas das quais admiro profundamente é de maior importância e um grande privilégio.

Acredito muito em algo que o Brian Eno defende, que é a oposição do termo “Genius“, com o termo “Scenius“, defender que no fundo a figura do autor genial isolado não existe. Existe sim uma condição geográfica e social que permite que vários artistas criem obras extraordinárias, seja com sentimentos de entre ajuda, de pressão à produção ou de partilha de técnicas e metodologias.

Se tiver que destacar três filmes, destaco o “Terra” do Hiroatsu Suzuki e da Rossana Torres, de 2018, o “Vitalina Varela” do Pedro Costa, de 2019, e o “Amor Fati“, da Cláudia Varejão, que vai estrear agora em Portugal.

O filme “Cores de Outono” (2020) levou-te a ganhar o prémio de Melhor Realizador Português na 28.ª edição do Festival de Curtas Vila do Conde. O que é que sentiste quando os prémios foram anunciados e de que forma é que encaras esta vitória?

R: Fiquei muito feliz com o prémio, acho que o “Cores de Outono” foi um filme feito com imensas adversidades, mas com muito amor e da forma que quis. Já havia participado como espetador em outras edições do Festival. Ter podido passar o meu filme lá, em sala, no meio desta loucura, já foi um grande motivo de felicidade.

Acho que mais que o prémio em si, é de certa forma uma validação de que o que faço tem relevância, e estando no início de um percurso isso é muito importante. A minha atitude até agora tem sempre sido de fazer e partilhar com as pessoas próximas a mim e receber delas comentários, sejam positivos ou negativos. Esse passo de no fundo receber uma validação externa é algo que me deixa feliz. Espero que também possa abrir futuras oportunidades para novos projetos.

Plano de “Cores de Outono”

De que forma é que a pandemia da COVID-19 afetou o teu processo criativo?

R: Acho difícil fazer essa análise no meio deste caos. Não tenho sentido grande vontade de filmar, são muitas restrições, e como disse anteriormente, se o cinema vive de uma relação de respeito entre quem filma e quem é filmado, pôr essas pessoas, sejam as que aparecem no filme, sejam as que colaboram para a sua realização, em qualquer posição de risco, é algo que me impede de avançar por enquanto.

Apesar do que tenho feito até hoje e do que pretendo continuar a fazer ser algo de pequena escala, na sua maioria sozinho, e com foco em paisagem, há várias pessoas que por trás da câmara colaboram bastante. O processo criativo em si continua igual, tenho projetos escritos, projetos inacabados, projetos que moram numa gaveta enquanto a situação não melhora.

Depois do crédito e da exposição que a vitória em Vila do Conde te deu, quais são os projetos que podemos esperar de Lucas Tavares no futuro?

R: Quero continuar a trabalhar na escala que trabalho, continuar a trabalhar o tipo de cinema que trabalho.

Em dezembro começo a realizar um projeto sobre o inverno, que vai ser filmado até março. Consegui reunir os meios necessários para o fazer de forma remota, com reuniões por Zoom e chamadas telefónicas com as pessoas que têm colaborado para o projeto, mantendo a distância máxima e todas as regras de segurança de quem vai ser filmado e de quem vai estar presente no local. Acredito ser possível fazê-lo no meio desta situação.

Depois tenho dois projetos, um sobre o Rio Douro e outro sobre a Estrada Nacional N2, que são completamente impossíveis de serem realizados nesta situação e por isso vão ter de ser engavetados por um bom tempo.

Contactos disponíveis

E-mail: lucastf21@gmail.com

Bernardo Freire

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