OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

“Inside Man” (2006) – em português, “Infiltrado” – conta a história de um assalto a um banco muito meticuloso e bem delineado. Tudo orquestrado por Dalton Russell (Clive Owen), um homem frio e inteligente, que estudou o seu plano ao pormenor. Entretanto, o duelo protagonista vs. antagonista dá-se com o detective Keith Frazier (Denzel Washington); estamos a falar de um homem competente, especialista em negociar reféns, e grande parte da esperança de que tudo tenha um fim tranquilo passa por ele.

No entanto, e eis que é aqui que se espoleta o dito motivo narrativo, a complexidade da mente de Dalton não perspectiva uma missão fácil para Keith. Mas, uma pergunta que surge é a seguinte: Dalton está a promover este assalto somente para enriquecer, ou há um motivo mais forte por detrás? A resposta a esta pergunta é logo definida num primeiro momento, e a real contextualização do filme surge, precisamente, a partir dessa resposta.

Clive Owen

Esta é uma produção guiada por Spike Lee – conhecido por filmes como “BlacKkKlansman: O Infiltrado” (2018) e “Da 5 Bloods – Irmãos de Armas” (2020) –, a partir do argumento de Russell Gewirtz. Centrando-nos na escrita deste filme, há que deixar bons elogios, não só à complexidade (impactante) das personagens de uma maneira geral, mas também como elas conseguem praticamente todas se interligar, neste ou naquele momento, proporcionando além de uma óbvia experiência de acção, crime e mistério, uma pitada fortíssima de thriller, género este que é, agradavelmente, o que resulta melhor, do início ao fim.

Além disso, não é um argumento que explore muito a subjectividade (a não ser como sinónimo natural de crítica reflexiva) e a falta de enquadramento, ou seja, praticamente todas as cenas estão lá por um motivo muito forte. Tudo está, de alguma forma, ligado, mesmo que até só o venhas a perceber mais tarde. E essa é uma das grandes belezas de obras cinematográficas mais audazes e melhor estruturadas em termos de argumento.

Uma das mensagens mais fortes deste filme é, sem dúvida, o enaltecimento profundo que se faz à resiliência, uma arma muito importante nas horas mais decisivas, porque o ser humano e as suas motivações, por vezes, ou quase sempre, requerem um contexto, uma compreensão, e que nos coloquemos no lugar do outro para chegarmos a um entendimento. Por outro lado, nem tudo o que parece é, e todos nós, com certeza, temos formas muito originais para mostrar um ponto, ou para cumprir um objectivo, ou até mesmo para fazer as pazes com o nosso passado.

Denzel Washington

Neste aspecto, “Inside Man” consegue ser também uma película bastante filosófica e introspectiva, no pós-visualização, uma vez que carrega consigo, precisamente, um lado psicanalítico inerente ao antagonista, e até mesmo ao protagonista, que enquanto jogo de emoções, de palavras e de puzzles mentais eleva a narrativa ao um patamar bastante reconfortante e, acima de tudo, desafiante.

Porque o que vemos não é simplesmente uma assalto e uma tentativa para o solucionar e salvar os reféns: grande parte da mensagem chave do filme encontra-se, por incrível que possa parecer, no subtexto, precisamente porque as cenas são um meio e não um fim em si mesmas; o fim, a moral da história, essa vale por si, mas quando achamos que o filme já nos tinha dado tudo e que dramaticamente tinha acabado e perdido o interesse, somos presenteados, felizmente, com algo mais, com uma intenção (catártica e interior) que, além de surpreendente, decorre com bastante naturalidade, realismo e magia cinematográfica.

Posto isto, “Inside Man” dá-nos uma experiência rítmica e ritmada de sensações, pensamentos e dúvidas. A única que pode mesmo escapar é aquela de que, depois da visualização do filme, além de um momento bem passado, nos tornámos melhores apreciadores da sétima arte.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: