OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

A cada dia que passa estou com a sensação de que a tecnologia está avançando rápido demais. Vou relatar como uma simples estadia num hotel pôde causar-me essa impressão. Se bem que posso aludir a minha lerdeza ao facto de atravessar o Oceano Atlântico, com fuso horário. Chego a Lisboa, ao aeroporto de Portela. Pego o táxi e dirijo-me ao Hotel Ibis Styles Embaixador (recomendo, pela excelência do atendimento e por ser bem central, na Rua Duque de Loulé, próximo à Praça Marquês de Pombal). Mas, escrevia sobre minhas dificuldades. Vamos a elas:

1.ª – Abrir a porta do quarto: claro que não sou de esperar que me entreguem chaves metálicas. Há muito já conheço o cartão magnético. Olho a maçaneta, não vejo lugar para enfiar o cartão. Paro. Passo as mãos pelo rosto. Penso. Desvendar a metafísica do Kant parece mais fácil. “Puxa vida, terei que pedir auxílio”. Dirijo-me ao corredor e um hóspede vem em minha salvação.

Explica-me que é só encostar o cartão. Como num passe de magia, da maçaneta reluz uma luz verde e a porta se abre. Estou dentro do quarto. Não demora muito e irão criar um dispositivo onde a porta se abrirá com uma piscada de olhos, sendo que no check-in do hotel você irá registar o seu olhar.

Immanuel Kant

2.ª – Não sei se é o hábito de vocês, mas, a primeira coisa que faço ao chegar a um hotel é verificar o banheiro. Checo as toalhas (o.k.), olho à volta e não vejo sabonetes. Não observo a famosa cestinha com shampoos e condicionadores. Mas, observo um tubo ao lado da pia e ao lado do registro do chuveiro. Como um silvícola em frente a um espelho oferecido por um navegante conquistador, fico a admirar. Então é isso: o tubo já contém tudo junto, e aí realmente penso que é uma medida eficaz contra o desperdício de recipientes plásticos. Quando o conteúdo do tubo acaba, basta preenchê-lo. Boa ideia! Consegui-me ensaboar.

3.ª – Se com o tubo a compreensão se dá de forma tranquila, ligar o chuveiro exige alguma arte. Não sei se acontece com vocês: a primeira ducha vem sempre fria. Vou manipulando a engenhoca (ducha e não chuveirinho). Giro à direita, fria demais. Giro à esquerda, quente demais. Sumiram as cores azul e vermelha. Levanto a haste. Pergunto-me por que não ofereceram uma disciplina de “Ligar Chuveiro” na faculdade de Filosofia que fiz. Haste no meio e um banho morno, tendendo mais para quente. Banhos tomados. Não demorará muito e no hotel oferecerão o “banho a seco”, para evitar o desperdício de água.

4.ª – Dois dias depois, no hotel e sentindo-me realizado por conseguir entrar no quarto, ajustar o aparelho de ar condicionado, ligar a TV e tomar banho, dirijo-me ao hall para fazer o meu check-in do voo a Paris. O recepcionista me indica o computador no restaurante. Sento-me, vejo a tela e… “Ai, Meu Padinho Ciço! Cadê o monitor?”. Olho novamente. Esfrego as vistas. “Vamos lá, filósofo! Essa geringonça deve funcionar com um toque”. Realmente, isso se dá. O link da TAP já está lá, toco e o mesmo se abre. Até aí tudo bem. Mas, quando pede para eu digitar a minha reserva de voo, “Macacos me mordam!”.

Mais uma vez recorro ao auxílio. O funcionário me indica uma área onde, com um simples toque, abre-se o teclado. Virtual. Penso: “Puxa vida, o próximo passo do computador é disponibilizar um computador sem tela”. Imprimo o meu cartão de embarque e saio refletindo sobre esses apetrechos ultra-modernos. Por essa altura, o recepcionista já me deve achar um parvo.

E, acompanhando-me o tempo todo, o celular emprestado da minha namorada com 125.487 funções, das quais solenemente aprendi a tirar fotos (com selfies onde não consigo ficar sem testa grande) e publicar no Facebook. É sério! Estou a precisar urgentemente de uma modernização tecnológica. Para ao menos conseguir entrar no quarto do hotel…

Marcelo Pereira Rodrigues

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