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Porque A Arte Somos Nós

Dotado da arte da animação, ilustração e narração de histórias, Lucas Moreira é um jovem artista brasileiro que emigrou do seu país natal para a cidade do Porto, onde encontrou o seu pousio de eleição. Licenciado em Artes Visuais pela Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, em Leiria, é no ofício do motion design que Lucas, de 31 anos, dá asas à imaginação numa base diária.

Podcaster semanal no projeto de crítica cinematográfica Binge Portugal, Lucas sacia a sua criatividade entre os mais variados projetos: em 2018 venceu o prémio CCDRN pela sua curta-metragem animada “O Norte Somos Nós“; em 2019 publicou um livro chamado “Something More“, uma coletânea de contos ilustrados; mais recentemente chegou a estrear em diversos festivais, incluindo a 40.ª edição do Fantasporto, uma curta-metragem animada, “Chasing Sparks“. Entre estes destacam-se ainda outros trabalhos contínuos de animação e ilustração.

“Chasing Sparks”

O seu projeto mais recente, que estreou a 10 de julho na versão inglesa e a 27 de julho na versão portuguesa, pela editora Rabiscos, chama-se “Ciclos de Sono” e é uma banda desenhada sobre uma rapariga presa num constante estado de lucidez e sono. Foi a propósito do seu novo livro que OBarrete esteve à conversa com o artista.

Como surgiu esta paixão pela ilustração e, por extensão, pelo storytelling?

R: Era algo que gostava muito de fazer quando era criança, mas que não cheguei a estudar. Quando me tornei adolescente, acabei por me interessar mais por cinema do que por desenho. O que é algo que não me arrependo, porque também adoro cinema. Depois do cinema passei para animação. Faço motion graphics em animação profissionalmente e acho que, indo por aí, as coisas começaram a cruzar-se. Fiz no ano passado uma curta e talvez o que proporcionou voltar a desenhar foi um iPad.

O livro “Ciclos de Sono” foi todo feito num iPad porque me sinto péssimo a desenhar em papel. Não sinto que tenha uma boa mão, acho que fica tudo demasiado solto, mas com o iPad tenho mais controlo e agora que fiz este livro todo, e depois de muita prática, talvez já tenha mais jeito a desenhar com uma caneta normal, mas o iPad foi a ferramenta que me despertou para trabalhar mais. O ano passado comecei a fazer umas pequenas histórias com oito ou dez páginas mas sempre com a ideia de fazer algo maior.

Chamando mais a atenção para o teu novo livro, “Ciclos de Sono”, o que é que te inspirou a escrever sobre este estado de limbo em que se encontra a tua protagonista?

R: Lembro-me quando tinha 15, 16 ou 17 anos entrei numa fase em que trocava o dia pela noite, ficava acordado até às 4, 5, 6 horas da manhã às vezes e depois passava o dia inteiro cheio de sono. Era péssimo. Não tinha vontade de comer à hora do almoço, não tinha concentração e depois quando começava a escurecer ficava desperto e com vontade de repetir o ciclo.

Já não é mais a minha vida, mas achei que esse estado da personagem foi inspirado por isto e também por ver amigos meus nessa fase. Atualmente não consigo fazer isso, mas às vezes me dá aquela saudade de ver por exemplo dois filmes, um atrás do outro, e passar as noites acordado, mas agora já sou velho!

“Ciclos de Sono”

Observei ao longo da história que o estilo da ilustração é bastante expressionista, mas não esqueces as formas geométricas que reconheci em alguns dos teus trabalhos anteriores. Quais foram as principais referências que te ajudaram no processo criativo?

R: A parte mais geométrica que referiste vem do motion graphics, estou acostumado a lidar com vetores, fórmulas e assim. Estou a tentar perder essa mania, ser menos dependente, mas livre na minha ilustração, é um processo. Quanto ao traço, não sei se é percetível, mas usei um brush diferente para cada capítulo do livro e também uma técnica diferente, mas ainda assim não queria que houvesse muito contraste, queria que o livro tivesse uma certa harmonia. Passava também do capítulo sete para o capítulo quatro sem problemas, não procedi de forma sequencial mas acho que o leitor não se apercebe disso. Fui cada vez mais ficando solto no traço.

Já no tópico das referências de ilustração, há um artista russo que gosto muito, Roman Muradov, mas, na verdade, quando vou a uma loja de bandas desenhadas ou até ao setor das bandas desenhadas da Fnac, não me identifico com 98% do conteúdo. Por exemplo, as séries de super-heróis da Marvel, entre outros, não fazem parte do meu estilo. Mesmo falando dos clássicos das bandas desenhadas independentes, também não costumam ser do meu agrado. Faço parte de um pequeno grupo que faz ilustração extremamente pessoal, então o que tentei ao máximo com o meu livro foi encontrar o meu traço e não tanto inspirar-me em referências diretas.

A certa altura na história, a protagonista atravessa uma ponte e, ao cair na água, adormece profundamente, até que uma voz lhe questiona “Lembras-te de quando sonhavas como querias ser?”. A obra tem como um dos objetivos recordar-nos dos sonhos que tínhamos antes de chegarmos à vida adulta? Terá sido apenas uma interpretação minha?

R: É possível que seja uma interpretação tua porque não pensei a 100% nisso. O que tentei com o livro foi, de forma meio vaga, tentar abordar todos os tipos de sonhos. Esse capítulo fala da infância e nesse caso sim, é um bocado sobre a criança que todos temos dentro de nós. Por acaso esta semana li num artigo que normalmente a primeira obra de um autor é sobre os seus traumas de infância, e consigo identificar isso no “Ciclos de Sono“, estou a expurgar um pouco a minha infância.

Então a ideia do livro é explorar vários tipos de sonhos e não pesadelos. Eu não uso a palavra “pesadelos” em nenhuma parte do livro. Além disso, o livro também pretende comentar sobre a dualidade dos sonhos que temos quando dormimos e os sonhos da vida, aqueles que queremos realizar.

Ilustração da obra

Um dos cineastas contemporâneos mais celebrados é, claro, Christopher Nolan. Uma das marcas dos seus filmes é a relação que estabelece entre o sonho e a memória. Sendo esta uma das temáticas da tua história, vês-te a espremer mais o tema no futuro?

R: Eu estou a tentar alternar de ano a ano uma curta-metragem de animação e uma banda desenhada. Como este ano lancei o livro, estou a começar a trabalhar, lentamente, na minha próxima animação que vai ser sobre sonhos e pesadelos. Depois disso espero pegar o tema tão cedo porque também se torna demasiado recorrente, mas aconteceu esses dois projetos serem sobre sonhos.

Sentiste alguma vez que estavas a sair da tua zona de conforto durante o processo criativo?

R: Foi um projeto muito pessoal, fiz-lo com imensa liberdade, pensando em mim para mim, mas diria que houve dois momentos em que me senti a sair da minha zona de conforto. Antes do primeiro capítulo, o Prólogo, como aborda mais pintura, senti-me ali menos à vontade porque não costumo pegar tanto. Enquanto dificuldade artística diria que foi o mais desafiante.

Agora, o que é novidade para mim é esta parte de lançar o livro, colocá-lo em livrarias, isso tudo é um mundo completamente novo para mim que estou a gostar de conhecer. Tenho interesse em conhecer toda esta parte, talvez menos artística, mas essencial para a divulgação do livro. Não é algo que me chateie, embora mal tenha terminado o livro, o meu lado criativo quisesse logo partir para outra!

Que barreiras tiveste de ultrapassar tendo em conta que terminaste o projeto no contexto da pandemia da COVID-19?

R: Eu terminei o livro no início da pandemia, em março. Fiquei a trabalhar a partir de casa e nas primeiras semanas dei os últimos toques, principalmente na parte do texto que era o que mais faltava corrigir. Quando o livro ficou pronto, pensei em fazer uma inauguração, uma festa ou algo mais pessoal, mas acabei por não o fazer.

Aliás, o que mais me afetou foi o facto de o livro estar pronto e não saber o que fazer porque as livrarias estavam a entrar em grandes dificuldades, não acreditava que quisessem comprar o livro de alguém que não conhecessem, e mesmo tendo em conta as dificuldades de todo o Mundo, não achava que alguém quisesse gastar dinheiro com o meu livro.

Tinha uma cópia física em casa e esperei até junho, quando as coisas começaram a normalizar, e aí tive um grande incentivo: levei o “Ciclos de Sono” pela primeira vez a uma livraria aqui do Porto, a Mundos Fantasmas, e o funcionário foi muito recetivo, disse que provavelmente teriam interesse no livro e atualmente está disponível lá. Isso deu-me o pontapé de saída para começar a divulgá-lo mais.

“Ciclos de Sono”

Que futuros projetos podemos esperar de ti e qual é o sonho que mais gostavas que se realizasse, fosse a dormir ou acordado?

R: (Risos) Boa pergunta! O meu próximo projeto é uma animação, que estou a organizar aos poucos, mas tem sido mais difícil fazer animação desde a banda desenhada. Não tem saído tão naturalmente, acho que peguei o bichinho da ilustração! Mas ainda quero experimentar algumas coisas novas no mundo da animação. Para o ano que vem quero terminá-la e, provavelmente em 2022, terei outro livro. Entretanto também tenho trabalhado em alguns videoclips, fiz um para um músico chamado Sonic Boom. Gostei muito de trabalhar neste projeto porque ao contrário de outros projetos neste não estou sozinho, tenho outras pessoas para colaborar e trocar feedback.

Quanto aos sonhos acordados… consegui que a minha curta-metragem de animação “Chasing Sparks” fosse exibida nos festivais que queria, por exemplo, no Fantasporto, no Motel X, que foi o primeiro festival que fui quando cheguei a Portugal com o meu pai. Era um grande sonho. O próprio lançamento deste livro foi um sonho concretizado, portanto o que gostaria de conseguir era, tanto para as curtas como para os livros, uma distribuidora que realmente pegasse neles e pudesse divulgar mais.

Na Fnac eu sei que não consigo entrar com o meu livro, é outro mundo. Relativamente às curtas, a Filmin era um objetivo. Portanto o meu sonho era chegar a esse nível, ainda que goste deste processo independente de divulgação. Lancei recentemente, com a minha namorada Cristiana Figueiredo, a editora Rabiscos e pretendemos editar mais projetos a partir dela, incluindo o seu livro de ilustração infantil –  também intitulado “Rabiscos“.

Capa do livro “Ciclos de Sono”

O livro “Ciclos de Sono”, de Lucas Moreira, está disponível nos sites: Blurb Books; Book Depository; Amazon UK; Amazon France e AbeBooks.

Lucas refere que com este livro pretende transmitir uma mensagem de inspiração para qualquer artista que pretenda começar algum tipo de obra. Acrescenta ainda que se for preciso algum apoio podem contactá-lo através do site:

http://www.luacsvfx.com/sleep.html

Nota: A entrevista foi redigida em português do Brasil

Bernardo Freire

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