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L'avenir

“L’avenir” (“O Que Está Por Vir“) começa numa viagem de barco, onde Nathalie (Isabelle Huppert) e o seu marido Heinz (André Marcon) passam umas típicas férias em família, juntamente com os seus dois filhos. Num segundo plano, anos mais tarde, a acção começa a tomar o seu devido rumo, demonstrando a rotina de um casal de professores – ambos de Filosofia –, o seu pensamento mais concreto, a forma como reflectem, como lidam com as situações enquanto uno, etc..

Desta forma, temos toda uma narrativa que encontra na “banalidade” o sentido, a criatividade e o verdadeiro desígnio de uma história que mostra, essencialmente, como é estar no fundo de um poço e mesmo assim ser capaz de se reerguer e lidar com a situação de maneira inteligente, frontal e peremptória. Estamos perante um filme, acima de tudo, calmo, tranquilo, contemplativo e naturalmente filosófico.

Nathalie Chazeaux demonstrava uma vertente de empatia e entreajuda bastante fora do comum, procurando sempre ajudar o outro, estar próximo dos seus alunos e, sendo ela a protagonista mais que óbvia deste drama, conseguiu, não só elevá-lo a um nível de intelectualidade soberbo, como também subjugar o próprio público a um atestado de ignorância enorme. A dado momento lê num autocarro o livro “O falhado radical”, que não podia transcrever de forma mais precisa aquela que, por uns breves momentos, foi a sua condição no pináculo emocional da história.

Há a realçar a sua relação forte com um ex-aluno em especial, Fabien (Roman Kolinka), escritor já com obras publicadas e um dos, senão o grande prodígio, de toda a sua história na docência.

Isabelle Huppert no papel de Nathalie

Relativamente à relação já de largos anos com Heinz, um homem bastante ríspido – profissional e socialmente –, as coisas começam a dar para o torto quando a sua filha descobre um caso extraconjugal com outra mulher e faz o ultimato ao pai entre aceitar a realidade e pedir o divórcio, ou mostrar arrependimento e enfrentar o seu erro, mostrando que era capaz de manter o casamento.

Ele acabou por escolher a opção mais fácil e contou tudo à sua mulher, isto é, que a ia deixar, e ela reagiu inesperadamente bem, conseguindo filtrar tudo para um bem maior. Posto isto, focou a sua vida na profissão e também no seu projecto: Nathalie dirige uma colecção de ensaios filosóficos realizados por alunos (com a sua orientação).

Além disso, vive a sua vida quase em função de uma mãe em depressão profunda, que acabaria por morrer, já num lar e sob vigilância psiquiátrica. Tudo isto que lhe estava a acontecer era quase como uma “traição do mundo” para com uma mulher super inteligente, madura, intelectual, amiga do seu amigo, humilde e tudo mais – o que mostra que estamos todos no mesmo barco do destino.

Ela foi vendo tudo a desmoronar-se, sobretudo culminando com a editora da sua colecção a despedi-la, por começar a duvidar da pertinência de continuar a vender a sua antologia. Uma das boas metáforas deste grande revés é, sem dúvida, a disposição da sua estante de livros, que outrora estava perante uma organização sublime e, após todo este desastre, se encontrava maioritariamente dispersa e caída – tal como ela perante a vida.

“L’avenir”

No entanto, surpreendentemente, e aproveitando para ir visitar o seu ex-aluno num retiro intelectual, acabou por admitir que tudo isto que lhe estava a acontecer lhe tinha finalmente dado uma “liberdade total”, algo que nunca tinha sentido, algo que nunca a Filosofia lhe tinha proporcionado e, mesmo com tudo isto que tinha acabado de acontecer e que classifica, precisamente, mesmo que em ponto mais ou menos razoável, a dita tragédia cinematográfica, ela sentia que a única coisa que precisava para ser feliz já a tinha: “ser intelectualmente realizada”.

Assim, se há algo a juntar aos planos de câmara rápidos (que compõem o dinamismo narrativo de excelência desta longa metragem) e à banda sonora forte, clássica e intelectual que o filme transpira, que mereça o devido destaque é, sem qualquer dúvida, o argumento e realização da cineasta Mia Hansen-Løve. Esta foi capaz de nos dar um cheirinho filosófico bastante reconfortante, refugiando-se bastante nos sons da natureza do nosso ser, mesmo que tenha entrado em desaceleramento demasiado cedo e que tenha fechado a cortina de uma forma pouco ortodoxa e demasiado aberta.

“L’Avenir” mostra, concretamente, a ideia de um futuro que não se consegue antecipar, nem se consegue fugir dele. Assim, a inexorabilidade do destino vai sempre conferir um significado incerto, mas sempre reconfortante, ao nosso mundo interior.

Bom cinema.

Tiago Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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