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Porque A Arte Somos Nós

Estamos a viver um momento único nas nossas vidas que nos leva a questionar como vai ser o dia de amanhã. Até agora vivemos diariamente com os números e o relato mais ou menos emocionado dos efeitos que esta pandemia vai causando por este mundo fora. Até agora preocupamo-nos com as pessoas que procuram a todo o custo superar a doença e com aqueles e aquelas que duramente lutam para as salvar.

Até agora o que importou foram as pessoas. A partir de agora o que interessa são os números. Não os números das pessoas, mas sim da economia. A partir de agora o que importa são as empresas, as exportações, o turismo, o café, o restaurante, a boutique…, independentemente de tudo o resto. Nem que isso custe mais uns milhares de vidas humanas. O que importa são as reeleições daqui por uns meses ou uns anos. O que importa é ficar bem na fotografia.

É evidente que no contexto sócio-económico em que vivemos hoje em dia, não é possível dissociar as questões económicas do nosso dia-a-dia, pois estas envolvem-nos sobremaneira. Dependemos do funcionamento da economia para termos rendimentos que nos permitam viver.

No entanto, estamos a pisar terreno desconhecido e o contexto em que esta nova epidemia se está a desenvolver obriga-nos a repensar, muito bem, digo eu, os moldes em que queremos continuar o caminho da nossa existência no planeta. Podemos assumir que nada voltará a ser como antes, principalmente no contexto social e das relações interpessoais. No domínio das artes, as dúvidas são muitas e as respostas muito poucas!

Todos temos a percepção de que a grande maioria das iniciativas de âmbito cultural envolve juntar muita gente no mesmo espaço. Se vamos a uma exposição de arte, juntamo-nos algumas pessoas simultaneamente no mesmo espaço, se vamos ao cinema juntamo-nos pelo menos umas boas dezenas de pessoas numa sala de cinema, se vamos a um concerto de música clássica juntamo-nos umas centenas de pessoas numa sala de espectáculo, e se vamos a um concerto tipo Rock In Rio, juntamo-nos uns bons milhares de pessoas no mesmo espaço.

Ora, a partir de agora e à luz do que está acontecer nos dias de hoje, nada disto vai ser possível repetir-se tão cedo. Então, como é que vai ser?

Rock In Rio 2016 / Fotografia de Rita Carmo, Blitz

É que, a vertente económica da arte (cá está a vertente económica) é de grande importância e dimensão! As iniciativas culturais a que nos habituamos nos dias de hoje envolvem, normalmente, várias dimensões económicas. Desde pagar cachets a artistas, patrocínios, aluguer de espaços, catering, divulgação, pessoal de apoio, segurança, em alguns casos direitos de transmissão ou gravação, e muitas outras componentes que fazem de um espectáculo uma imensa máquina de fazer dinheiro e de fazer funcionar várias áreas da economia.

E, se tudo isto a partir de agora deixar de ser possível, o que é que vai ser feito das diversas formas de arte? É que, arte é partilha. É juntarmo-nos para partilhar alguma coisa de que gostamos, e para além do mais é uma ótima justificação para nos encontrarmos socialmente.

Pensemos agora nos artistas, o que vai ser feito do seu trabalho? Um artista quando cria, tem por objectivo, como já mencionei atrás, partilhar. Se não pode partilhar, deixa de fazer sentido criar. Sim, bem sei, é possível divulgar um espectáculo rock por via multimédia, mas não é a mesma coisa.

Falta o tremer do chão, a adrenalina do som, das luzes, dos moches, falta tudo… e um artista plástico, vai apresentar os seus novos trabalhos via internet? Como é possível apreciar arte num computador? Vamos passar a ver cinema na nossa sala de estar num ecrã dezenas de vezes mais pequeno que numa sala de cinema, sem a emoção do inesperado? Vamos passar a ter espetáculos para apenas umas dezenas de pessoas?

É que, economicamente não é viável pagar a uma banda como os Aerosmith, por exemplo, para atuar na Altice Arena para mil ou duas mil pessoas. Pura e simplesmente não dá, pois um espectáculo destes envolve centenas de pessoas para se realizar. Ou, por exemplo, imaginem a sala Sugia na Casa da Música com a lotação esgotada com apenas 500 pessoas lá dentro. E os exemplos não mais acabavam…

Em suma, é urgente pensar como é que vai funcionar a arte a partir de agora. Não se pense que é de alguma forma dispensável, pois a arte é algo que acompanha o homem desde há milénios. É algo inerente ao homem que o obriga a desenvolver o seu espírito criativo e que simultaneamente o faz sentir bem. É, como já referi, partilha, e se deixamos de partilhar tudo fica mais difícil. Vamos acreditar que é possível erradicar este vírus que limita a nossa vida e regressar aos bons tempos, mas até lá é imprescindível encontrar uma solução para as artes, para que os artistas não façam, também eles, parte da estatística. Vamos acreditar.

Protejam-se.

Jorge Gameiro

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