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Uma ilha isolada, uma pintora e uma jovem prometida ao homem, comprometida com a regra de “aceitar e fazer”, são os retratos do novo filme de Céline Sciamma, uma realizadora poeta, que pintou a paixão, de certo modo tímida, até se converter no retrato de um amor “flagrante” entre duas mulheres presas a uma sociedade que venda os olhos à liberdade feminina.

Mais do que um filme com um peso feminista imenso, “Portrait de la jeune fille en feu”, ou “Retrato da Rapariga em Chamas” (na versão traduzida para português), é uma peça de uma amplitude poética colossal que desenha um amor vivido no século XVIII, entre Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel), duas jovens que no caminho da auto descoberta acabam por chegar uma à outra. Marianne, jovem pintora, é desafiada pela “rebeldia” de uma outra jovem, Héloïse, confinada ao que lhe é dito esta é obrigada a casar com um desconhecido, e na tentativa de se tornar indomável e na procura incessante por uma liberdade longínqua, renega à pintura do seu próprio retrato.

Confinadas a um pedaço de terra rodeada pela imensidão do oceano, fazem de uma ilha o seu mundo, e multiplicam-no até ao infinito, ignorando o futuro que se vai tornando cada vez mais num presente, que na tentativa “falhada” de chegar à emancipação, tecem uma nova liberdade.

Noémie Merlant (esquerda) e Adèle Haenel (direita)

O mais interessante em toda a obra, diria, e reescrevendo as palavras de AV Club, “A deeply stirring romance with a modern soul“, é o facto de a linha temporal ser somente um pequeno ponto a reter no imensurável argumento do filme. Céline Sciamma consegue criar uma película com um passado cronológico remetente para século XVIII, que se pode transportar até aos dias de hoje; um filme com uma “alma moderna”, um grito feminista para que o direito de todos passe a ser o direito de todas.

Os problemas do passado que convertem-se em novos problemas no presente. Sendo, portanto, o ponto mais importante de todo o filme, que é embalado numa fotografia deslumbrante, uma atuação quase perfeita de ambas as atrizes e uma realização, como já referi, poética.

“Portrait de la jeune fille en feu” faz parte da seleção oficial de Cannes, tendo vencido dois prémios neste festival – Melhor Argumento e Queer Palm – e é um filme que oferece muito. Oferece sobretudo bom cinema, cinema subtil que envolve o espectador que se oferece também para escutar com atenção o poema de Céline Sciamma. A obra, que morosamente se vai tornando num grito feminista, é pintada de um amor inibido, mas cheio.

Maria Moura Baptista

⭐⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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