OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Para compreender artistas, é necessário não só perceber o passado, as dinâmicas, o que suscitou nele algo para crescer, ver o mundo de outra forma, capaz de suscitar contemplação e incitar reflexão. Os chamados “traumas da infância” são, inevitavelmente, essenciais para entender a unidade do artista, isto porque não se pode avaliar os motivos de um escritor sem se saber algo do seu desenvolvimento inicial, do estado embrionário da sua liberdade criativa.

Mas, afinal, qual é a função da Arte? No fundo, disciplinar o nosso temperamento, por forma a evitar que fiquemos presos nalgum estágio imaturo. Mas a verdade é que todos nós – e não só escritores, cineastas, actores (etc.) – somos amplamente influenciados por puro egoísmo, não só evidente no nosso óbvio desejo de parecer inteligente, de sermos falados e lembrados após a morte, e isto, mais uma vez, é algo transversal a cientistas, artistas, políticos, advogados, empresários bem-sucedidos. Não há volta a dar. O nosso ego é capaz de espoletar em nós características por vezes apenas ilusórias no dia-a-dia, mas que existem e que fazem de nós um todo bem maior que a mera soma das partes.

Nesse sentido, Arthur Schopenhauer, em “A Arte de Insultar“, disse que o egoísmo “quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: «Tudo para mim e nada para os outros» é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo“. Isto é não só evidente na tentativa e determinação infinita dos artistas em viver as suas vidas até o fim, independentemente do estado caótico em que estejam, mas revela, naturalmente, que as suas acções, em essência, partem de si e acabam em si (egocentrismo). Contudo, isto não fica só por aqui: conseguimos ver, também, o delírio artístico (incessante e vaidoso) no entusiasmo estético, isto é, na percepção da beleza no mundo externo, visível no prazer do impacto de um som, das palavras, do ritmo… Mas também no chamado impulso histórico: o desejo de ver as coisas como elas são, na tentativa de eternizar o que se sente.

Decerto, mesmo que o processo criativo seja uma tentativa individual e por vezes monótona, mas sempre irracional, de (re)construir o nosso mundo, o que está por detrás, sempre, daquilo que queremos contar nunca será um processo totalmente limpo; e com isto não estou a dizer que a arte seja imoral e desumana na sua índole… Simplesmente estou a dizer que não vale a pena passarmos paninhos quentes ao processo criativo: todos somos, e aceitamos, ser influenciados pelo “sonho do sucesso”.

Fernando Pessoa uma vez escreveu: “Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escrúpulo de deixar quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade“.

Vale a pena pensar nisto.

Tiago Ferreira

One thought on “A arte do egoísmo

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: