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Porque A Arte Somos Nós

O Teatro Rivoli, no Porto, recebeu a peça de Boris Charmatz “10000 gestes”, que tal como o nome indica, toda a narrativa é contada através de gestos e do movimento, estando esta ausente de um diálogo corrido – ao longo da peça somos bombardeados com gritos e expressões soltas.

A peça inicia-se com uma atuação a solo, uma junção de movimentos soltos com bocados de dança contemporânea ou até mesmo ballet. Não tarda a juntarem-se os restantes 20 atores, numa espécie de interacção constante entre todos, de forma a elevar o poder físico e mental dos nossos corpos. A performance é contagiante no sentido em que assistimos a uma aplicação do livre-arbítrio em palco, pois durante a nossa vida em sociedade somos sujeitos a certas situações e pressões que seriam capazes de ser exprimidas através de movimentos “estranhos” e descoordenados do nosso corpo. Os gritos e as expressões faciais dos artistas remetem-nos para certos estados mentais e emocionais, sendo que a variação de humores é algo patente ao indivíduo – uma provocação importante para esta experiência artística. Em certas alturas da peça, sentimos que estamos a entrar num dos anéis da pintura de Botticelli “O Abismo do Inferno” (1480), obra inspirada pelo trabalho literário de Dante Alighieri, “A Divina Comédia“. Pois, em certa medida, esta peça teatral assemelha-se, por vezes, a uma pequena comédia: gestos, palavras e até mesmo provocações por parte do elenco, que pareciam ter a finalidade de roubar certas gargalhadas ao público presente. O lado mais lunático esteve sempre presente, traçando assim um perfil irónico à sociedade contemporânea. Não estaremos nós constantemente presos a uma rotina de movimentos que nos consome o espírito cada vez que repetimos um gesto? Aqui não houve espaço para rotinas, em “10000 gestes” nenhum movimento se repetia…

Boris Charmatz é bailarino, coreógrafo e diretor do Terrain. Nesta peça, Boris claramente homenageia a natureza efémera da dança. Tal como é descrito, a peça consiste numa “chuva de movimentos, que poderia ter sido gerada por algoritmos matemáticos, mas que aqui se faz de maneira artesanal, a partir dos corpos dos intérpretes. Sendo absolutamente subjetivo, cada gesto é mostrado apenas uma vez, desaparecendo depois de executado.” Esta é um grande risco, tendo em conta a sua ambiciosa abordagem a áreas como a representação e a dança. Esta só pode ser entendida e compreendida dentro dela própria. Contudo, o caos vivido em palco acaba mesmo por chegar ao público (literalmente). A certa altura, os atores fazem de toda a sala um palco – uma espécie de metáfora para com o mundo -, mexendo no cabelo das pessoas, equilibrando-se pelas cadeiras, pegando em objectos pessoais, incentivando mesmo a certas interacções físicas… Tudo isto em simultâneo com uma contagem, em voz bem audível, de várias datas. Diria mesmo que toda a experiência ganha outra dimensão após esta aproximação dos artistas, quebrando uma barreira que desde o início da obra nunca deveria ter existido.

Todo este conjunto de gestos irrepetíveis parece alcançar o espectador de um modo hipnótico e até meditativo. “É que o caos visual de um movimento que nunca é completado por outro dá uma ilusão de imobilidade. Nesta peça é impossível apertar a mão de alguém.”

Durante o espetáculo, para além dos atores, a iluminação tem um papel importante. Esta é minimalista, mas ao mesmo tempo responsável por moldar o estado de espírito e a intensidade da narrativa. Aqui, mérito para Yves Godin. Outra componente importante durante a peça: a música. Requiem in D minor K.626 de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791), interpretado por Wiener Philharmoniker, dirigido por Herbert von Karajan e gravado por Wiener Musikverein em 1986 (1987 Polydor International GmbH, Hamburgo). A componente musical traz um maior significado à expressão corporal, como que um diálogo megalómano que nos transporta para uma dimensão paralela, onde existe um natural sentimento de pertença desse mesmo espaço.

Uma experiência diferente brutal, animalesca e, sem dúvida, enriquecedora!

Rating: 3 out of 4.

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