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Porque A Arte Somos Nós

Foi com muita perplexidade que constatei, uns meses depois de ter visto a película, que esta se tratava, na verdade, de um fenómeno nunca visto anteriormente. É difícil chegar até a um filme tão universalmente aceite e rendido à profundeza cinematográfica que traduz, ou talvez apenas quanto ao filme em si, às sensações que traz, e ao que transmite mais directamente. Apesar de tratar uma realidade muito feroz — que não deixa de ser transversal à nossa conjuntura enquanto globo —, é capaz de juntar sátira, comédia, drama, acção, tudo numa história com um princípio, meio e um fim muito coeso. Na altura, quando visualizei com satisfação o filme, cheguei à conclusão que o final porventura tivesse sido demasiado audaz. Como se existisse demasiada ousadia na arte, mas julgo ser compreendido quanto a esta sensação puramente irracional.

Mais racionalmente, e após ver “Parasitas” a limpar os principais prémios na noite tão esperada dos Oscars, julgo ser fundamental constatar que estamos a atravessar uma mudança na mentalidade do Cinema das grandes instâncias. Numa Academia que todos apelidam como por vezes de cega e parcial, que apenas “investe” em filmes por interesses económicos, e que sirvam para conservar a ilusão de uma Hollywood perfeita e totalmente digna, a verdade é que – já foi “quase” com “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018) o ano passado – vemos uma mente muito mais aberta para aceitar filmes “estrangeiros”. Contudo, estes ainda hoje são um pouco “estranhos” à comunidade americana, habituada quase que por inteiro, a produções nacionais. Isto não só demonstra que o cinema per si está a mudar, como também, e talvez um pouco mais importante, a forma como o mundo vê, aprecia e aplaude a Sétima Arte.

Depois temos a humildade de Bong Joon Ho, o realizador e maestro do filme, que na hora de aceitar a distinção para Melhor Realizador, não deixou de enaltecer como influências maiores dois dos Grandes Senhores de Hollywood, Scorsese e Tarantino. Parafraseou o primeiro, ao dizer que foi a frase “quanto mais pessoal, mais criativo é“, que usou como epígrafe para pautar e exponenciar o seu trabalho, não tendo medo, portanto, de pôr tudo aquilo que é em tudo aquilo que faz — expressão de outro génio, mas da escrita, Fernando Pessoa.

Em suma, fiquei muito feliz com a vitória de “Parasitas” na passada noite de nove de Fevereiro, não só porque de entre os nomeados era sem dúvida dos filmes mais consistentes, como também porque, acima de tudo, é um filme puro, que não tem nada por detrás, a não ser toda uma panóplia de genialidade: desde o cast, à produção, aos escritores, ao filme como um todo.

Parabéns ao “Parasitas” e à Academia por não se agarrarem ao Passado e mudarem, incessantemente, o Cinema.

Tiago Ferreira

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