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Porque A Arte Somos Nós

Hoje em dia, estamos numa sociedade de aparências; uma sociedade que apenas almeja conseguir um estatuto, o reconhecimento das pessoas, mesmo que por detrás disso haja um vazio, uma falta de motivação profunda e de prazer naquilo que se faz no dia-a-dia, naquilo que nos motiva (ou não) a ser melhores. Procuramos ser bem pagos, sem primeiro investir em algo em que sejamos verdadeiramente bons, para daí advir, com naturalidade, uma valorização (e valoração) da pessoa, de forma a conseguir exponenciar a sua estabilidade (emocional, humana e financeira). Mas, o verdadeiro problema é um pouco mais complexo. Hoje em dia, há falta de sinceridade e de frontalidade. Podemos até discordar das pessoas, mas nunca teremos a ousadia (a clareza intelectual) para o dizer, mesmo que até se trate de um amigo próximo, com quem devemos ter, naturalmente, esse tipo de confiança, é preferível iludir a outra pessoa, dizer que tudo está bem, que gostamos do que está em causa, ao invés de sermos sinceros, primeiro connosco mesmos, depois com os outros.

As pessoas de hoje vivem atormentadas pelo medo de serem mal interpretadas, de ferirem o outro, de não serem compreendidas, de ficarem mal vistas, por isso, na maioria das situações permanecem caladas, silenciosas, reprimidas. Não fosse o maior problema da actualidade, não a voz dos loucos, mas o silêncio dos sensatos (lúcidos), como disse Martin Luther King, o facto de preferirmos calarmo-nos – mesmo que essa escolha (que é uma escolha) não seja uma realização intencional, muitas vezes – revela não só que somos uma sociedade, fundamentalmente, de medos. Lutámos tanto pela nossa liberdade de expressão, e a verdade é que hoje em dia não lhe fazemos um uso pleno, só parcial, só num contexto muito restrito, pessoal, ou confortável. Tudo isto para dizer que, nos dias de hoje, apenas nos sujeitamos a situações que se mantenham na nossa zona de conforto, e muitas vezes nós temos potencial para sermos bem sucedidos noutro patamar, mas o medo é, quase sempre, maior que nós próprios.

Há uma pequena história, muito conhecida, que ilustra muito bem a forma como as pessoas de hoje se manifestam e se revoltam para com opiniões, situações e preconceitos: “Um rapaz e um velhote vão a passar por uma aldeia e levam um burro com eles. Ao passar pela primeira aldeia, os habitantes fazem troça deles por terem um burro e irem ambos a pé. O rapaz sobe ao burro. Na segunda aldeia, os habitantes fazem troça e criticam o facto de ser o velhote a ir a pé. O velhote sobe ao burro. Ao passar na terceira aldeia, a história repete-se e ambos são alvo de críticas por estarem os dois em cima do burro, que assim ficaria com bastante peso para suportar. O rapaz desce. A passar pela quarta aldeia, o velhote é criticado por ser o rapaz a ir a pé, privando o menino de ir mais confortável no burro“. Tudo isto serve para demonstrar que na sociedade de hoje, independentemente do que tu faças, vais ser criticado, e vai haver sempre alguém a dizer que estiveste mal. Esta história, além de traduzir bem a essência da nossa sociedade em geral, caracteriza, igualmente, as redes sociais: um “espaço público” que serve para as pessoas se expressarem irreflectidamente, sem critério e repleto de preconceitos.

Posto isto, deixo um apelo ao leitor: cultivemos mais a nossa individualidade e autenticidade, e deixemos os outros seguir a vida deles, fazer as suas escolhas, e não colocar ninguém acima de nós. Esta é a nossa vida: nós somos a pessoa mais importante da nossa vida. Não devemos ter medo de sermos autênticos. Só de, pelo contrário, não o sermos.

Vale a pena pensar nisto.

Tiago Ferreira

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