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Porque A Arte Somos Nós

Inspirada no livro de Jorge Amado (“Capitães da Areia“), “Margem” é uma peça intensa, rítmica e textualmente provocadora. Esta conta a história de oito rapazes e uma rapariga que carregam consigo memórias de amor, perda, violência, luta, amizade ou solidão.

A partir da leitura do livro, o encenador da peça, Victor Hugo Pontes, procurou a temática bruta e dolorosa da obra, tornando a natureza deste trabalho, assim, documental. “Esta não é uma história só de 1937“. Para isso, este procurou “os capitães de areia” dos nossos dias: encontrou-os em instituições de acolhimento como a Casa Pia, em Lisboa, ou o Instituto Profissional do Terço, no Porto. Com o texto ao encargo de Joana Craveiro, este junta o livro de Jorge Amado, o testemunho dos jovens institucionalizados e a própria biografia dos intérpretes.

Ao longo da peça somos levados por entre diálogos e frases que mais parecem, inúmeras vezes, poemas. Para criar a narrativa mais dinâmica, temos muita música – esta encarregue a Igor Domingues e Marco Castro (Throes + The Shine) – que em conjunto com as danças contemporâneas e algo tribais dos actores, transmitem uma arrebatadora força física ao texto. As coreografias são intensas e os artistas demonstram um entrosamento praticamente perfeito.

“Margem”, de Victor Hugo Pontes / Fotografia de Paulo Spranger / Global Imagens

O grupo de adolescentes abandonados de São Salvador da Baía funciona como uma espécie de família, que vive num trapiche (um armazém). Estes roubam para comer, pois não lhes resta outra opção para sobreviver numa sociedade pautada por contrastes e escalões sociais. A sua realidade é a marginalização, sendo que a obra nos confronta e espelha um mundo onde as oportunidades não são iguais para todos.

Graças a esse défice, muitos vivem “à margem”. A mensagem é bastante clara. Esta ganha outro poder com as histórias de cariz pessoal dos jovens, que sofreram casos de violência doméstica, alcoolismo ou abandono. Mas o que os leva a ser diferentes? A serem olhados de lado, como criminosos?

Quando eu cheguei aqui, eles já eram uma família“. Ouvimos, contadas em primeira pessoa, histórias que habitualmente preferimos ignorar. Sem dúvida que conseguimos muitas vezes transportar certos episódios desta peça para a nossa realidade, onde já perdemos alguém ou assistimos a casos de exclusão social. Esta é uma obra que nos obriga a reflectir no que nos rodeia, e no real significado da felicidade. Ninguém deve ser privado de ter acesso ao ensino, alimentação, carinho, ou até de uma mãe ou um pai. “Como tudo aconteceu. Mas não como tudo acabou, porque a história continua“.

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