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Porque A Arte Somos Nós

Mulherzinhas“, uma adaptação do livro de Louisa May Alcott ­— pela brilhantíssima Greta Gerwig —, pode ser definido em duas palavras: arte e irmandade. Realmente é disso que se trata este filme, de arte na sua plenitude e nas suas diversas formas (a representação, a música, a escrita e a pintura) e de laços inquebráveis entre quatro irmãs: Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen).

O filme balança entre o passado e o presente, contanto a história da família March (mais precisamente das quatro irmãs), alternando, ainda, com a vida amorosa de Jo e com a doença de Beth. Tal como já disse, o filme é rico em arte, pura arte, uma vez que cada uma das irmãs tem um talento muito bem definido e uma personalidade muito única. Jo é a mais irreverente, a mais rebelde, uma escritora indomável; Meg, a mais velha, é também a mais vaidosa que, apesar de tudo, não persegue o seu sonho, o de representar; Amy é a mais mimada, por assim dizer, mas é quem revela um maior amadurecimento ao longo do tempo; e Beth, a mais calma, a mais bondosa, acaba por ficar doente.

As irmãs são unidas e completam-se de uma forma muito peculiar. No entanto, à medida que vão crescendo, vão-se separando; Meg casa, Amy vai para França estudar pintura e procurar um marido e Jo vai para Nova Iorque perseguir o seu sonho como escritora, enquanto que Beth se mantém na sua casa de infância, em parte devido à doença.

O foco do filme é, sem dúvida, Jo que contracena com o seu melhor amigo e vizinho Laurie (Timothée Chamalet), que acaba por se apaixonar pela escritora que não acredita no casamento. A amizade dos dois sofre com esta paixão não correspondida de Laurie, o que leva Jo a sentir-se cada vez mais sozinha.

Mais tarde, as quatro irmãs voltam a reunir-se com a morte da bondosa e talentosa Beth, cuja doença piorou e acabou por levá-la. Mas agora, anos depois da bela juventude que tiveram juntas, tudo mudou, principalmente para Jo, que se apercebe do que perdeu ao recusar Laurie. A questão é que tudo tem uma razão de ser e o destino de Laurie era, na verdade, Amy, que sempre fora apaixonada por ele. Jo sentia-se sozinha e julgou, por momentos, que devia ficar com o seu melhor amigo, mas, como acabou por confessar à sua mãe, Marmee (Laura Dern), ela não o amava, simplesmente queria ser amada por ele.

Um filme repleto de amor, do início ao fim, um filme de valorização da amizade e da família e de reflexões sobre o passado e sobre o futuro que, nesta obra-prima, se distinguem por uma antítese de felicidade e perda.

É, ainda, relevante salientar o papel do tio de Laurie, Mr. Laurence (Chris Cooper), que demonstra uma faceta emocional muito importante na sua relação com Beth; os dois desenvolvem uma amizade muito bonita e sincera, mergulhada em amor paternal. Também o papel da personagem de Timothée, que revela uma nudez de sentimentos numa cena intensa e crua de honestidade e rejeição, faz lembrar a sua representação em “Chama-me Pelo Teu Nome” (Luca Guadagnino, 2017)

Este filme é, mais que tudo, sobre a emancipação da mulher na arte, porque realmente as personagens mais importantes e de destaque são mulheres, mulheres fortes, independentes, únicas e perfeitas nas suas imperfeições.

Para fechar, eu diria que uma frase dita por Jo, num momento em que esta revelou a sua fragilidade emocional, descreve muito bem toda a razão por detrás da realização deste filme: “I’m so sick of people saying love is all a woman is fit for. I’m so sick of it. But I’m so lonely“.

Lorena Moreira

⭐⭐⭐⭐

IMDB

Rotten Tomatoes

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