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Porque A Arte Somos Nós

A música popular brasileira, mais conhecida como MPB, tem, como qualquer estilo que nasceu num caldeirão de várias influências, intérpretes de todos os lados que a abordam e que, quase sem querer, revolucionam o género a partir de uma mistura muito pessoal e única de estilos. Como Chico Buarque, no início dos anos 70, fez uma mistura de samba com música psicadélica e letras interventivas que o colocaram na vanguarda dos mais interessantes músicos do Brasil. Mas, se se trata de grandes revoluções musicais, sem esquecer o Movimento Black Rio e o Movimento Tropicalista, a banda que ilustra isso deve ser obrigatória: Novos Baianos foram chamados e retomaram a tradição brasileira do grande e infeliz Assis Valente, o samba mais básico, adicionando uma guitarra elétrica digna dos melhores para a mistura. O resultado: uma espécie de samba-rock absolutamente único.

“Acabou Chorare”, o segundo álbum de estúdio da banda, é o ponto onde culmina toda essa experimentação. Eleito como o álbum mais importante da música brasileira por especialistas da Rolling Stone em 2007, pode-se entender muito bem toda a aclamação na crítica: a mistura de rock e música tradicional brasileira poderia cimentar facilmente tudo o que aparecia a partir de então, ensinando os músicos daquele país, na época mais focados na música negra, que o som também pode ser eletrificado, “balançando”, e sem perder a identidade característica de toda a música de lá. Como velas, imagens mágicas e cenas tangíveis erguem-se, um surrealismo levemente perceptível como um oásis permeia a letra e a melodia, encantando-as num estranho limbo de melancolia eufórica.

Toda a ideia culminante é resumida numa peça instrumental, Um Bilhete Pra Didi, na qual o grupo  demonstra como os dois mundos podem coexistir. A faixa de abertura Brasil Pandeiro, composta pelo compatriota baiano Assis Valente, mostra uma descontinuidade perceptível em relação ao trabalho do ano anterior, É Ferro na Boneca, entrando em movimentos mais beat rock ocidental, unidos aos sentidos tropicalistas. As belas canções acústicas como a que intitula o álbum (Acabou Chorare), A Menina Dança e Preta Pretinha (ambas as versões) são músicas fantásticas de samba com um ritmo absolutamente irresistível. Depois, há o Tinindo Trincando, com o seu ritmo único e uma guitarra elétrica funky. Aqui, a performance de Bernadete “Baby” Consuelo, de 20 anos, ataca o íntimo ‘feminino’, sendo instintiva e autêntica, divergindo dedutivamente do que esta declara ser uma fragilidade amarga na qual percebe todas as emoções da vida. Nos restantes temas do álbum, faixas como Mistério do Planeta ou Besta É Tu respiram o som brasileiro, lembrando as obras de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Concluindo, “Acabou Chorare” é o melhor álbum gravado pelo coletivo de Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, “Baby” Consuelo, Luiz Galvão, entre outros. Contudo, a força tenaz emana das animadas invenções de cordas elétricas e acústicas (Moreira e Galvão) do folclore, das harmonias vocais suaves, e das digressões e trabalhos coletivos do Carnaval. O disco abre e revisita todas as marcas indígenas: samba, bossa-nova, tropicalismo, cultura e contra-cultura, numa chave alegremente anárquica durante a ditadura brasileira. Tudo aqui é colorido e revive, em fantasias inconstantes, jornadas em recantos particulares ou entre febres compartilhadas e fervorosas.

João Filipe

⭐⭐⭐

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