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Porque A Arte Somos Nós

Estamos, hoje em dia, num clima severo de desconfiança e altivez para com os nossos grandes representantes (grandes no sentido de representarem altos cargos da nossa sociedade). Claro que fica peremptório falar de Política e dos políticos. “Muito se fala hoje de políticos e pouco de Política”, é a ideia base da nossa sociedade de hoje. Infelizmente, não estou a dizer que grande parte dessas críticas de que “são todos farinha do mesmo saco” não tenham um fundo de verdade, mas afinal grande parte das vozes maiores, aquelas que vão para a praça pública e que proliferam nas conversas de café, falam sem grande moral: os mais críticos, e agora centrando-me um pouco mais na Política, são aqueles que têm o desplante de não ir votar, só porque sim. Por outro lado, aquele argumento de que não ir votar é para aqueles que estão a leste dos problemas da sociedade e que, por extensão, têm uma atitude acrítica, é também ela uma conjectura errada e de ignorante.

A verdade é que vivemos num clima de “uns contra os outros”, onde não há espaço para o diálogo nem para crescermos juntos, humana e espiritualmente, isto porque, e infelizmente, tudo isto é uma bola de neve: tudo começa e acaba nesse clima de descrença e das ideias pré-concebidas. Eu explico: uma pessoa, na actualidade – isto numa visão mais de senso comum (que não é tão diminuto quanto isso) –, não analisa as conjunturas: apenas pressupõe que os problemas (que para a maioria nem são problemas) do passado se vão manter para o resto da vida, sem admitir, portanto, que o universo evolui, que as pessoas evoluem e que, com elas, a sua realidade – interior e exterior. Deviam, apenas, estar cientes de uma coisa, essas pessoas: da sua profunda apatia e irrelevância intelectuais.

O que eu apelo e deixo com os leitores é: em vez de se criticar quem tem ideias – porque as ideias, invariavelmente, afectam e ameaçam quem não as tem –, devíamos (e falo no plural, porque não sou excepção à regra quando tendo a falar mais com a irracionalidade) focar-nos na essência das ideias, e não julgar o livro pela capa, como se costuma dizer. Só porque não gostamos de alguém, não significa que as suas ideias, de vez em quando, não sejam boas; por extensão, se gostamos de alguém, não devemos aceitar tudo o que a pessoa diz. Um exemplo concreto relativamente a isto, mais paradigmático, é o de Greta Thunberg: a adolescente activista de 17 anos, que tem gerado muita celeuma pelo mundo, pela forma firme com que partilha as suas convicções. Acima de tudo, há muita gente que não gosta dessa postura e, portanto, já é capaz de dizer que ela não tem boas ideias e que não tem relevância, mas, na verdade, devíamos ser capazes de filtrar e sermos o máximo de imparciais. É por isso que muitas vezes há génios a usar a arte, ou como escape à realidade, ou como fonte para contar a sua verdade – e, claro está, a do mundo (ou de, pelo menos, como o vê) –, precisamente porque querem que a sua verdade, ou a sua opinião, seja vista de forma limpa, isto é, límpida mas sem figura; subtil e difícil, mas poderosa.

E, portanto, tudo isto para chegarmos à arte: porque não há evolução sem arte, nem engenho. Para isso, é preciso mudarmos muita coisa em nós, para conseguirmos conviver com os outros, crescer com os outros, aprender com os outros e sermos felizes com eles. Mas, primeiro que tudo, há que ser feliz com a nossa realidade, com o nosso prisma – que deve ser amplo, abrangente –, e não nos acanharmos; não negligenciar nada, nem ninguém.

José Saramago uma vez disse: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo“.

Vale a pena pensar nisso.

Tiago Ferreira

2 thoughts on “O mundo como ele é

  1. 3Talheres diz:

    A imagem da Greta é um bom exemplo de como uma mesma pessoa pode ser colocada como exemplo de argumentos opostos. Gosto da resolução ainda mais quando ela não sai barata: temos que começar a mudança por nós e não ficar achando que é o outro sempre que está errado.

    1. Aos olhos do que estamos a viver hoje em dia, com a questão da pandemia e dos direitos raciais, devemos cada vez mais refletir nas nossas escolhas e atitudes, pois muitas vezes os problemas nascem de acções que podiam/deviam ser evitadas, ou de simples falta de respeito pelo outro. Por vezes, em simples atos, podemos fazer toda a diferença pela positiva. Mais reflexões virão, agradecemos o apoio!

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