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Porque A Arte Somos Nós

Apesar de todo o talento do cineasta inglês Ridley Scott, com um sentido de fotografia e arte notável, muitos dos seus filmes são aceitáveis. Pior, alguns são realmente horríveis, como “G.I. Jane – Até ao Limite” (1997), “1492: Cristóvão Colombo” (1992) ou “Prometheus” (2012), pois são filmes que deixam marcas e não pelas razões certas. Ainda assim, Ridley Scott mantém uma boa reputação graças às obras-primas e sucessos de bilheteira. Penso em particular no “Gladiador” (2000), um blockbuster que fez ressuscitar a sua carreira, bem como os dois filmes de ficção científica que o tornam quase intocável para alguns: “Blade Runner: Perigo Iminente” (1982) e “Alien – O 8.º Passageiro” (1979), dois dos melhores filmes do género. O primeiro, adaptado do romance de Philip K. Dick, é um fantástico cyberpunk com temas marcantes, e o segundo, uma obra-prima do horror, ambos estão simplesmente entre os melhores filmes do final dos anos 70 e início dos anos 80.

“Alien – O 8.º Passageiro”, um filme aterrorizante e frio que toca nos nervos do espectador que nunca fica ileso. É construído por efeitos especiais limitados, mas espetaculares, com uma direcção artística fenomenal e alguns atores que encaixam perfeitamente. Entre a claustrofobia e suspense, tudo isto num ambiente em ruínas onde os membros de uma nave encontram a criatura mais perigosa do espaço. Nada é poupado ao público.

Para tornar este filme numa completa obra-prima, precisava de alguém com uma visão musical. Não se trata de contratar um mero compositor que faria música genérica. Originalmente, o japonês Isao Tomita foi aconselhado por Scott para compor a música, mas finalmente foi Jerry Goldsmith, uma aposta certa para Hollywood, que foi recrutado. Tensões subsequentes foram criadas quando a música de Goldsmith foi recortada ao capricho do editor-chefe Terry Rawlings, que até aceitava as peças compostas pelo músico para outros filmes.

Dito isto, nada impediu que Goldsmith se sintoniza-se com o filme, criando músicas tão assustadoras quanto agradáveis. Em vez de se focar em temas, Goldsmith compôs uma paisagem sonora sombria e dissonante que se encaixa na atmosfera escura e intensa do filme. A Orquestra Filarmónica Nacional, que emprega cordas e metais para tocar música que esmaga e sufoca, é cúmplice da escuridão do USCSS Nostromo, que esconde um passageiro clandestino dos mais indesejáveis por causa do seu perigo. Nenhuma emoção positiva percorre a música, nenhum contraste impertinente entre uma situação tensa e uma melodia alegre deve ser deplorado. A ausência de um tema real contribui claramente para impedir qualquer familiarização, para evitar dar um ramo de alívio, por mais fútil que seja. O uso dos ventos reforça um carácter mórbido, principalmente quando Ripley (Sigourney Weaver), Parker (Yaphet Kotto) e Brett (Harry Dean Stanton) encontram um gato do navio: Cat Nip. Goldsmith impõe-se sem desempenhar um papel importante, desaparece sem ser transparente. Apesar de toda a genialidade musical, alguns temas parecem pouco conseguidos, especialmente o que ilustra a luta final entre Ripley e o Alien, mas no geral, nenhum erro crasso é encontrado.

Em suma, “Alien” não é apenas a obra vanguardista de Jerry Goldsmith, mas também uma perfeita combinação. O filme envolver-se numa atmosfera claustrofóbica, na qual a música se torna primordial, mas nunca sufoca a sua presença. É como o monstro, sabemos que está lá e que só intervém quando necessário. Além disso, a banda sonora é independente, outras precisam do contexto para serem eficazes, mas esta evoca uma sensação de suspense e mistério. Um raro sucesso, mas acima de tudo bem merecido.

João Filipe

Rating: 4 out of 4.

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