A curta novela “Estudo de Mulher”, de Honoré de Balzac (1799-1850) é sugestiva, na confirmação de algumas das suas observações acerca da sociedade francesa à época. É sempre bom passear pelo seu humor refinado, analisar modos e comportamentos e reafirmar algumas das suas ideias. Típica história folhetinesca, “Estudo de Mulher” explora uma missiva atrevida de um pretendente, sendo repetitiva no que diz respeito à troca de destinatária, sendo o criado José inocentado deste erro.
Modo de vida que faz um dândi acordar com o propósito de apenas escrever estas cartas, entre o sono e a vigília as intenções (não tão boas) deste Don Juan que atende pelo nome de Eugénio de Rastignac (aliás, um dos mais importantes personagens da “Comédia Humana“, na novela “O Pai Goriot” ele apresenta-se mais) dirigem-se à mulher casada, a marquesa de Listomère. Vejam como o retratista Balzac pinta a nossa personagem, percebam a fina ironia:
“A marquesa de Listomère é uma dessas jovens senhoras educadas no espírito da Restauração. Tem princípios, jejua, comunga, e vai muito enfeitada aos bailes, aos Bouffons, à Ópera; o seu diretor espiritual permite-lhe aliar o profano ao sagrado. Sempre em dia com a Igreja e com o mundo, ela oferece uma imagem do tempo presente, que parece ter tomado a palavra Legalidade por epígrafe.“

Lembremos do adjetivo balzaquiana para nos referirmos a uma mulher ainda desejável, a famosa mulher de trinta anos, aliás, uma das suas mais destacadas tramas decorre daí. Embora Balzac tenha conferido estes atributos de beleza às trintonas, o certo é que o seu olhar zombeteiro aponta para a coqueteria de muitas delas. Figuras para a sociedade, devem sempre representar um papel e fazem dos seus dons arrivismo, geralmente sendo desposadas por figurões do comércio, da política e da alta burguesia. Assim ela é casada com um deputado sem muito brilho, o Sr. de Listomère, que mal se faz ouvir nas assembleias e que julga o mundo a partir da leitura dos seus jornais.
Um colóquio dá-se entre “Casanova” e a mulher pudica quatro dias após a receção da missiva. O marido dá-lhes privacidade, entretido com a gazeta. Eugénio faz ver o engano e que não se atreveria a cometer tamanho acinte. Aí o psicólogo de almas Balzac ataca: por trás da honra ofendida, a senhora fica a desejar que ela fosse mesmo o alvo da abordagem. Obviamente que ela deve manter as aparências (como cronista social, Balzac sabe que as aparências são fundamentais) e assim o flirt fica em suspenso.
Balzac homenageia o seu colega Sthendal (1783-1842) citando um trecho da sua obra, aliando o facto da narrativa ser feita pelo médico Horácio Bianchon. Se o argumento ‘troca de correspondências’ passa ao largo de ser original, a forma, os detalhes, a abordagem com a qual narra a história faz deste médico o alter ego de Balzac, tão ferino para diagnosticar personagens.
A novela é um gosto! Só tem um senão: ela é curta demais, quase um conto.
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