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Os triângulos são estruturas rígidas, enigmáticas e estão por vezes associadas a poder. Exemplos como a santíssima trindade e o símbolo dos Illuminati servem para ilustrar o ponto. Contudo, Ruben Östlund, cineasta e argumentista sueco, propõe adicionar mais uma propriedade a esta forma geométrica: a tristeza. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2022, “Triangle of Sadness” – “Triângulo da Tristeza” em português – é o seu primeiro filme em língua inglesa e sem dúvida um dos menos prodigiosos. Dissonância que não diminui a sua mensagem. Pois, contas feitas, pertencer aos 0,01% das pessoas mais ricas do planeta não só é fator de alienação, como também pode ser extremamente grotesco.

Apropriadamente dividida em três partes, a sátira social narra a história de um casal de modelos que tem uma paixão performativa. “É bom para aumentar os nossos seguidores no Instagram“, diz Yaya (Charlbi Dean, na sua derradeira interpretação) sem rodeios. Já Carl (Harris Dickinson), apesar das discussões, acredita que a relação pode ir mais além. Pelo menos até a um cruzeiro de luxo vai de certeza. Lá encontramos o restante elenco, composto por caras multinacionais que partilham o facto de terem contas bancárias em paraísos fiscais. Um oligarca russo, um casal britânico que comercializa armas e até um capitão embriagado.

Charlbi Dean (Yaya) e Harris Dickinson (Carl)

É este o cenário burlesco e radiante que ocupa o grosso do filme. Adornado com a tripulação do cruzeiro, figuras menores estratificadas consoante a cor da pele. Quem a tem mais clara está em contacto direto com os passageiros e ambiciona receber uma gorjeta choruda. Já quem tem um tom mais escuro restringe-se à limpeza, cozinha ou sala de máquinas. À medida que as personagens interagem, o contraste expõe os delírios, indulgências e superficialidade dos multimilionários, primeiro com recurso ao ridículo e, por fim, através de sequências escatológicas.

Está tudo certo, com um grande senão. Ao contrário do que o cineasta sul-coreano, Bong Joon-ho, disseca em “Parasitas” (2019), as observações de Östlund roçam o truísmo. A estrutura da semiótica limita-se a evidenciar os comportamentos anedóticos e desalinhados dos magnatas. É necessário chegar à terceira parte para que a dinâmica de poderes mude e, com ela, as marés da narrativa comecem a agitar. No entanto, aí chegados, já muito se desenrolou das 2 horas e 27 minutos que “Triangle of Sadness” propõe. Com muito do tempo dedicado à noção corrente de que a posse desmedida reduz a sensibilidade e o bom senso, ao ponto da selvajaria.

Woody Harrelson (O Capitão)

É um alvo fácil, mas não estranho a Östlund. Examinou a hipocrisia dos endinheirados do mundo das artes em 2017, quando assinou “O Quadrado“. Um estudo de personagem com a sua marca, bastante contundente e que também arrebatou o prémio máximo em Cannes – desta vez merecido. O que separa estes dois títulos é a capacidade de articular o social com o pessoal. Isto é, enquanto no filme quadrangular o protagonista é bem desenvolvido no contexto do seu universo, as personagens deste triângulo funcionam como piões num esquema de colisões entre beleza e poder, feminino e masculino, capitalismo e comunismo. Com implicações muito mais banais do que astutas.

São demasiadas ideias condensadas numa viagem. No entanto, sem surpresa, o criativo sueco mantém a destreza visual suficiente para entreter as suas loucuras. A mise-en-scène do jantar que se revela um escândalo carnavalesco de fezes e vómitos é uma boa amostra. Contempla, em si, uma micronarrativa com introdução, desenvolvimento e conclusão. Regozijamos, a par do filme, com a fantasia absurda de toda a situação, sem que estejamos a marcar uma posição acutilante sobre os objetos do gozo. Tal como o destino das personagens, Östlund fica-se pela costa.

Bernardo Freire

Rating: 2 out of 4.

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