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Perplexos, estamos a assistir a um genocídio, ao extermínio deliberado dos ucranianos pelos russos. Milhares de pessoas em movimento, tentando fugir da zona de combate, cruzando fronteiras, espalhando-se pelo mundo – como viria a acontecer com o pai de Aracy. Algo semelhante aconteceu com a Arménia que, durante a Primeira Guerra, foi tomada pelos turcos otomanos, que acusaram os arménios de serem aliados dos russos. Vieram os massacres, as deportações, a faxina étnica, num processo implacável e sangrento que levou à morte muitos arménios.

As autoridades turcas, no entanto, sustentam que tudo foi resultado de uma guerra civil acompanhada de doenças e fome. A República Soviética transcaucasiana foi dividida entre Arménia, Azerbaijão e Geórgia, gerando tensão, medo, terror. A independência veio apenas no dia 21 de setembro de 1991, tornando a Arménia uma nação vocacionada para o desenvolvimento e a liberdade.

Foi nessa onda de êxodo e valentia dos arménios que o pai de Aracy Balabanian veio para o Brasil, fixando-se em terras de cerrado do sul de Mato Grosso, na cidade de Campo Grande, numa rua central, a Dom Aquino. Os arménios logo perceberam que era uma boa praça para o comércio e dedicaram-se principalmente ao ramo do calçado. Nessa mesma rua, onde moramos até hoje, o meu avô português, Carvalhinho, fabricava e vendia móveis. As nossas famílias eram, portanto, vizinhas e amigas, sendo Aracy da mesma idade que a minha mãe.

Aracy Balabanian na peça “A Antígona”, de Sófocles, dirigida por Benjamin Cattan (1966)

A família Balabanian era singular. O pai de Aracy casou-se pela segunda vez com uma senhora arménia, também viúva. Ele com cinco filhos e ela com um. Aracy foi o fruto dessa união e conviveu cercada de irmãos, num total de sete. Foram educados para a vida, orientados para serem independentes, neste novo país em que foram acolhidos. E Aracy, nascida em 1940, em Campo Grande, trilhou esse caminho.

Aos quinze anos, Aracy mudou-se para São Paulo. Estudou Sociologia e Arte Dramática, pois o teatro sempre foi a sua paixão e o palco, o seu lugar. Desde criança, queria ser anjinho no auto de Natal. Um dia, ouviu a reprimenda: “Com esse nariz adunco e os olhos saltados, você não pode ser anjinho. Anjinho é só loirinha, que tal pastorinha?” A menina arménia cresceu, virou atriz e, mais tarde, para sua surpresa, um realizador lhe disse: “Você veio da terra sagrada, oriental, exótica. O papel que lhe cabe é o de Maria.” Foi um grande triunfo. Décio Almeida Prado, depois de a ver atuar, declarou: “Ontem nasceu uma estrela.

Aperfeiçoou-se com professores da categoria de Cacilda Becquer e Sábato Magaldi. O seu sonho foi crescendo. Fez carreira no teatro, no cinema e na televisão. Foi a Antígona, da tragédia de Sófocles; par romântico de Sérgio Cardoso na novela “António Maria” (1968-1969). Tornou-se uma das maiores intérpretes do meio artístico com personagens inesquecíveis até chegar à excêntrica Dona Arménia, nas novelas “Rainha da Sucata” e “Deus nos Acuda“, de Sílvio de Abreu. Com Dona Arménia, Aracy pode fazer uma homenagem à sua descendência, lembrar a sua infância, treinar o sotaque, passar toda a sua emoção. A expressão “na chon“, bordão de Dona Arménia, virou sucesso nacional.

Aracy Balabanian e Sérgio Cardoso na novela “António Maria” (1968-1969)

No livro “Nunca Fui Anjo“, Aracy desvenda factos dramáticos, trágicos, cómicos e surpreendentes da sua vida, registados por Tânia Carvalho. Conta que optou por não se casar e não ter filhos para abraçar unicamente a carreira. Que renasceu das cinzas, depois de um incêndio que destruiu o seu apartamento na Gávea. Revela-se uma pessoa íntegra, autêntica. Uma cidadã do Brasil que tem a Arménia no coração.

A Arménia que supostamente outrora foi o Jardim do Éden bíblico. Que, segundo a tradição judaica, foi onde a arca de Noé encalhou após o dilúvio, próxima ao monte Ararate. A Arménia dos impérios, do cristianismo, das dinastias, das ocupações árabes e persas. Assim Aracy se pronunciou no livro “Arménios e Brasileiros: marcas de uma convivência“, de Sossi Amiralian: “Meus pais me encantavam; a ternura que nos deram, mesmo depois de tudo o que passaram e viram durante a guerra. Jamais guardaram rancor.

Você continua nos encantando, Aracy, com o testemunho de uma esperança que vem do perdão e da coragem de lutar, de recomeçar.

Raquel Naveira

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One thought on “Aracy Balabanian e a Arménia

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