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Em setembro de 1986 o filme “Top Gun“, de Tony Scott, aterrou nas salas de cinema portuguesas e fez a sua parte em consagrar Tom Cruise como um dos atores mais populares da sua geração. Eu não era nascido, mas tive a oportunidade de ver a história de um homem que aprende a transformar a sua arrogância em confiança, muitos anos mais tarde. Um ato de competência medíocre, sensacionalista e mecânico, cujo principal desígnio foi servir de publicidade para as forças armadas norte-americanas – aspeto no qual foi bem conseguido, pois houve um aumento interessante de alistamentos após a estreia.

Foi, portanto, com algum ceticismo que entrei na sala escura para ver “Top Gun: Maverick”, realizado por Joseph Kosinski, a sequela que vê o ator revitalizar o papel da personagem título, 36 anos depois da estreia do original. Para grande satisfação, é seguro afirmar que esta sequela não só é superior, como também já se tornou no blockbuster sensação do verão de 2022.

Dentro das razões está o palpitar tangível de uma equipa repleta de paixão pelo ato de fazer cinema, de viver as rodagens sem recurso a telas verdes, encabeçado por um Tom Cruise que não podia exorbitar maior charme, a dias de se tornar sexagenário. Este entusiasmo é sentido pelo público, que lhe dá ímpeto suficiente para trocar o aconchego do streaming pela envolvência e aplausos comunitários de uma sala de cinema.

Tom Cruise (Capt. Pete ‘Maverick’ Mitchell) e Jennifer Connelly (Penny Benjamin)

A história dispara com uma sequência que marca desde logo um tom nostálgico, sendo praticamente plano por plano um recalque do original: o mesmo preâmbulo escrito, a música de pop-rock Danger Zone a preencher a banda sonora e a montagem frenética da descolagem e aterragem de vários aviões. É o aquecimento de que precisamos antes de Pete “Maverick” Mitchell (Cruise), ainda capitão na marinha, voltar a mostrar-nos que não perdeu o gosto pela velocidade, nem a rebeldia que o caracteriza.

Enquanto é repreendido por um oficial (Jon Hamm) e um almirante (Ed Harris), é-lhe dito que, a propósito da substituição dos pilotos à conta da automação tecnológica, a sua raça “está a dirigir-se para a extinção“. Enquanto se desloca para fora do escritório, Maverick responde com o típico aprumo: “Talvez, Senhor… Mas ainda não.”

Mav é, assim, solicitado para regressar à Top Gun – onde os melhores pilotos da nação são treinados – desta vez no papel de professor, para preparar um grupo de destemidos para uma missão no estrangeiro que envolve destruir uma instalação de enriquecimento nuclear. A situação revela-se delicada quando um dos jovens pilotos selecionados é Rooster (Miles Teller), o filho de Goose, este último amigo de Mav que faleceu num acidente infortúnio. Conseguirá Maverick ser imparcial na escolha dos melhores pilotos para a missão? Conseguirão ter sucesso na mesma?

São perguntas para as quais “Top Gun: Maverick” encontra respostas cativantes. Muito porque, por entre os meandros da sua narrativa sentimentalista e passageira, está uma estupenda coreografia de aeronaves, capaz de envolver até os mais desligados das personagens. A montagem é inteligível, o trabalho de câmara é dinâmico e o design de som faz vibrar a cadeira (e nós com ela). Esta mescla de características é propulsora de uma ação divertida e magnética, desde os treinos mais inofensivos até às sequências mais tensas da missão. Sem esquecer que são pessoas reais na cabine de pilotagem a fazer acrobacias reais: uma premissa confiante que revela destreza e que vai contracorrente à era dos efeitos visuais.

“Top Gun: Maverick” (2022)

Em seu detrimento, a longa-metragem parece, por vezes, mais um remake do que uma sequela, não só por causa de como começa, mas também porque ao longo da narrativa vão sendo introduzidas frases, encontros e sequências inteiras que fazem alusão ao filme original. “Top Gun: Maverick” quer tanto fazer estes apelos e piscar o olho à audiência que por vezes esquece-se de ser o seu próprio filme, preenchendo a experiência com excessiva familiaridade. Não obstante, é incrivelmente difícil resistir aos encantos de Tom Cruise, que carrega o projeto de ombros erguidos nos papéis de ator e produtor. Sabemos que está a adorar cada segundo e deseja que nos aconteça o mesmo.

É referido mais do que uma vez, que “não é o avião, é o piloto [que importa]” – e há um derradeiro esforço nesse sentido. Consegue, inclusive, alguns momentos de terna introspeção que revelam alguma maturidade face ao seu antecessor. Porém, ao leme da realização, Joseph Kosinski carimba “Top Gun: Maverick” não com o pulsar dramático das personagens, mas sim com uma tremenda capacidade técnica no que diz respeito ao cinema de espetáculo visceral. E é precisamente por esta vertente que o vou recordar e estimar.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

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