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Deparei-me com um quadro clássico: “A Inocência“, de William Bouguereau (1825-1905), um pintor académico francês, que dominava perfeitamente a forma e a técnica realista. Trata-se de uma moça descalça, recostada numa fonte. O vestido é simples, branco, vaporoso. Um jarro ao chão. Dois anjos, um em cada ombro, parecem dispostos a elevá-la ao céu. Um deles deposita uma flor em seu decote. Talvez seja uma camponesa.

A personificação da inocência, essa qualidade de quem é incapaz de praticar o mal. A pureza tem um poder que protege. É uma necessidade de realização plena de uma vida em comunhão com Deus no coração, nas intenções, nos pensamentos. É uma maneira limpa, sem contaminação, de ver as coisas, afinal, “para os puros todas as coisas são puras”.

As crianças possuem essa inocência. São crédulas, imaginativas, acreditam em tudo o que contamos, confiam e admiram os adultos. Presas fáceis da crueldade humana. É necessário manter vivo esse estado de infância em que habitam a criança e o poeta. Mas como lavar as mãos na inocência? Dispensando amigos rudes? Não se lamentando nunca da própria sorte? Controlando a mente? Abstendo-se de tudo que mancha e entorpece os nervos? Invejo quem não conhece motivos de dor e revolta. Queria o conforto da inocência. Bem sei o que sinto e o porque sinto. Conheço os finais trágicos das histórias e dos romances.

E por falar em romance, “Inocência, do Visconde de Taunay, é um livro encantador, charmoso, suave e pitoresco. Um caso de amor contrariado, em meio à luxuriante natureza do sul de Mato Grosso.

Capa da Primeira Edição de “Inocência” (1872)

Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), primeiro e único Visconde de Taunay, foi um nobre aristocrata, escritor, músico, político, historiador e sociólogo brasileiro. Lutou na Guerra do Paraguai como engenheiro militar, de 1864 a 1870. Desta experiência surgiram os livros: “A Retirada da Laguna“, episódio épico, vibrante, descrevendo a bravura dos heróis que foram obrigados a bater em retirada, perseguidos por numerosos inimigos e pela peste que os dizimava e “Inocência”, uma joia de estilo natural e romântico.

O leitor sente-se cativado pela narrativa e se indaga qual seria o final daquele triângulo amoroso formado pela bela Inocência, de faces mimosas, cílios sedosos e olhos matadores; Cirino, o prático em farmácia que percorria os caminhos medicando as pessoas e Manecão, o noivo violento, bruto, a quem ela era prometida. Tudo se passa numa fazenda próxima do município de Santana do Paranaíba, nos ermos do cerrado cheirando a araticum;

Inocência era um ser com pouca consciência de si e, ao mesmo tempo, tão cheia de resistência, que preferiu a morte a renunciar ao amor verdadeiro que sentia por Cirino. E a morte desceu sobre os amantes com sangue e vingança.

Retrato do nobre e escritor Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay

Meyer, um cientista que caçava insetos para os museus europeus, batizou com o nome de “Papilio Innocentia” uma espécie de borboleta, talvez laranja e preta, que tremulava as asas sobre os tufos de hortênsias.

Essa obra-prima regionalista tornou-se o romance brasileiro mais traduzido da época e, mais tarde, foi considerado o precursor da literatura sul-mato-grossense.

Viram? Assim como Taunay, conheço os dramas de guerra e do amor e morte universais. Tenho prática em viagens. Explorei as margens dos rios Taquari e Aquidauana. Escalei morros e mergulhei em cachoeiras. Quem viaja sozinha por essas matas, não é mais inocente. O prazer que tive ao observar aquele quadro e ler aquele livro me surpreende e emociona. A inocência tem a marca da originalidade e faz chorar.

Raquel Naveira

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