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Porque A Arte Somos Nós

É difícil de imaginar circunstâncias mais desumanas do que aquelas experienciadas no teatro de guerra (como em “Onoda…”). A carne é desfeita, os ossos quebram e as vidas cessam antes de cumprirem o seu ciclo natural. Aqueles que resistem, inteiros ou em partes, retomam a mundanidade da rotina, acompanhados pelo fantasma do trauma. Em grau variado, o tratamento psicológico adequado tem a capacidade de apaziguar a alma. É nesta fase que a guerra abandona o homem, mas o que acontece quando o homem é incapaz de abandonar a guerra?

Esta é a pergunta central do extraordinário drama bélico “Onoda – 10, 000 nuits dans la jungle” (2021), realizado e coescrito pelo cineasta francês Arthur Harari. Com estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes, o filme conta a inacreditável história real da personagem título, o Tenente Hiroo Onoda (representado por Yûya Endô, em tenra idade, e por Kanji Tsuda, em idade mais avançada). Parte integrante de uma força especial japonesa que operou durante a Segunda Guerra Mundial, o soldado recusou-se a acreditar que a mesma terminara e continuou em missão durante quase 30 anos na selva de Lubang, uma ilha remota nas Filipinas.

“Onoda – 10, 000 nuits dans la jungle” (2021)

Treinado para resistir à morte a todo o custo e enviado em 1944 para a ilha, o objetivo inicial de Onoda passava por limitar o impacto do exército Aliado. Quando os japoneses começaram a perder o controlo da ilha em 1945, o soldado, acompanhado de três camaradas, continuou em atividades de guerrilha. Desde então, o foco virou-se para o reconhecimento do local e para a destabilização das tropas Aliadas e dos nativos, na esperança inglória de que as forças imperiais retomassem o controlo do território.

Imageticamente austero e vagaroso na sua cadência, a narrativa compõe um retrato holístico do seu protagonista. Recusa-se a reduzir-se a uma encruzilhada de projeteis, da mesma forma que não julga a tomada de decisão de um homem que foi doutrinado até à medula. Temos acesso, através de flashbacks, à formação exigente a que foi submetido, pela mão do Major Taniguchi (Issey Ogata).

No seguimento, seria fácil ceder à tentação de representar a lealdade do protagonista como heroica, um modelo do que de melhor já se viu na milícia imperial japonesa. Ou até um severo delírio febril. Por sua vez, num ato de absoluto prodígio cinematográfico, Harari opta por mostrar o bom, o mau e o feio. Deixando o destino das conclusões à nossa mercê.

Kanji Tsuda (Hiroo Onoda, mais velho)

É certo que tempo não lhe faltou para arquitetar esta lógica de neutralidade moral. De salto temporal em salto temporal, “Onoda – 10, 000 nuits dans la jungle” preenche quase três horas de filme com emoções das mais variadas índoles. Para lá da sensação de fome, o calor e a chuva intensa transformam-se em fonte de tensão e desconforto. Noutras circunstâncias, o cineasta desenvolve o enredo com eventos inesperados, promovendo o choque. No final, senti-me tomado pela emoção, guiado pela clareza da direção de fotografia de Tom Harari e pela simplicidade mágica do tema que acompanha a transição para os créditos finais.

A passagem do tempo frui de uma montagem incisiva, que faz uso do encadeamento para sublinhar a monótona evolução desse mesmo tempo. De forma inexorável, a noite faz-se dia e o dia faz-se noite, num circuito sem termo. Quando o ator Yûya Endô passa o testemunho ao seu homólogo, Kanji Tsuda, as marcas da estadia prolongada na expressão do ator são evidentes. Apenas na sua segunda longa-metragem, Arthur Harari comanda os intérpretes em cena com uma desenvoltura admirável. Conseguindo extrair deles todo o pathos necessário para instituir um drama profundo, discreto e sem rasto de pretensiosismo. Os traços de um dos grandes eventos do cinema este ano.

Bernardo Freire

Rating: 4 out of 4.

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