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Antes de chegarmos a Sara: quando manuseamos os nossos telemóveis, certamente não nos preocupamos com os elementos de sua fabricação. Lógico, não dá para raciocinarmos tanto. Mas o que diriam se um dos elementos que compõem a bateria dos aparelhos fosse a de um metal raro e que se encontra no continente africano, sendo uma mina clandestina no Congo? No meio da imensidão da floresta, em tomadas aéreas de tirar o fôlego sendo a terra vermelha das picadas em forma de estrada e os rios e lagos caudalosos, o êxtase é garantido. Mas advirto, não é uma terra para fracos ou principiantes.

Tendo este preâmbulo como mote, a película “El cuaderno de Sara“, do realizador Norberto López Amado, escrito por Jorge Guerricaechevarría, com a sua 1h55mim é um drama aventura estrelado por Belén Rueda, Manolo Cardona, Marian Álvarez e Florin Opritescu. Esta é uma produção espanhola e está disponível na Netflix Brasil. Laura (interpretada por Rueda) viaja ao Congo para investigar o paradeiro da sua irmã Sara (interpretada por Marian). Chegando a Brazzaville, sabe que ali será um entreposto até contratar um mercenário que a levará num avião clandestino de pequeno porte ao coração da selva africana.

A beleza brutal da natureza com a sua área verdejante contrasta com o cenário de terror observado, com populações tribais que se mutilam a golpes de fações e armas de fogo. Estupros, assassinatos, humilhações das mais vis e tudo isso pela política de guerrilheiros que espalham o terror como forma de manterem o seu poder. Um desses gangsters, Gavião, é o mito espalhado entre os crédulos, de quem detém o poder e é o único que consegue conversar com os espíritos. Com uma população afeita a crendices e superstições, nada mais garantido que a lenda perpetue.

“Sara’s Notebook” (2018)

É denunciado a escola dos miúdos soldados, crianças que realizam o rito de passagem sendo admitidos pelo pai Gavião e tendo como arma a sua mãe, uma metralhadora. Psicologicamente falando, é no miúdo que se planta mais cedo a ideologia, dai a eles uma camisola do Futebol Clube do Porto para ver. É intrigante a cena em que Gavião dispara uma bala de brincar contra um miúdo, de modo a fazer crer que sob o beneplácito do chefe nada poderia lhe acontecer.

O drama pessoal de Laura perde-se nesse todo. Mulher branca e loura, contrastando com a africanidade de tudo e todos, aventura-se pela selva intentando encontrar vestígios de uma irmã que muito provavelmente estaria morta. Tendo como pertence um diário obtido de Sara, empreende a busca e dá-se conta de que entrou no inferno, vendo de perto todas as atrocidades contidas no parágrafo anterior. A película aponta para uma coragem extraordinária, e se fôssemos a raciocinar mais detidamente, acredito que até mesmo John Rambo (personagem de Sylvester Stallone) planejaria com muito mais antecedência a incursão.

Assim sendo, a sanidade mantida após tantas desventuras, o seu quase estupro e as balas a atravessar próximo dos seus ouvidos já nos fazem crer que nada irá lhe acontecer de mau, por mais que o cenário seja inóspito. Se no drama a protagonista deve ser preservada, até para nos poder contar depois a sua história, vá lá, mas eu julguei a missão mais propícia a um Rambo do que a uma mulher branca e loura espanhola.

Belén Rueda (Laura)

O filme apresenta-nos um país contraditório em si mesmo, com milicianos e bandidos assumindo os poderes na ausência de um Estado garantidor da lei e da ordem e, notadamente, não é um país convidativo. Mas, nas entrelinhas, percebe-se no modo de viver dos locais as singularidades existenciais daqueles que vivem a vida na sua plenitude, o drama dos miúdos recrutados para as falanges e acerca do misticismo e superstição, o passaporte para toda sorte de abusos.

Laura encontrará a sua irmã Sara? Nada mais cliché que relacionar exatamente o paradeiro dela ao mítico e ruim Gavião, tendo ela que servir ao ditador, uma vez que fora cooptada e que encontrara naquela missão um real sentido para a sua existência. Não nos cabe julgar, apenas observar, e no meio do inferno, contrastando com as paradisíacas paisagens, o único entreposto é a base militar do Exército das Nações Unidas. Acerca das missões religiosas que ocupam a área, mais como albergue de indigentes do que outra coisa, sair vivo dali é sinal de heroísmo e sorte que mais se adequariam a um Rambo (não me canso de não reconhecer a brancura de Laura como crível).

Assistam à longa-metragem e manuseiem os vossos telemóveis, atentando-se para a mensagem acerca da origem do elemento da natureza que serve de matéria-prima para os aparelhos. No mínimo, leva-nos a conclusões. Um argumento um pouco perdido, mas com cenários e fotografias lindíssimos, duas horas bem passadas de reflexão.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 2.5 out of 4.

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