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Jornalista, gay, dândi e afetado, poucos poderiam imaginar que o ególatra Truman Capote (1924-1984) fosse marcar o seu nome como um dos maiores escritores do século XX. Sucesso advindo do seu excelente “A Sangue Frio”, publicado em 1965. Da edição que tenho em mãos, esta é da Editora Nova Fronteira, com 386 páginas. Romance de não ficção, o autor gostava de propagar que havia inventado o género, embora soe demasiado pretensioso. Penso que ele cumpriu bem o seu ofício ao narrar uma dramática e incrível história, para lá de trágica.

Um crime chocou os Estados Unidos em 1959: numa cidadezinha do Kansas, Holcomb, uma família de fazendeiros é assassinada e a brutalidade é chocante. Espécie de lugar onde nunca acontecia nada, o que ocasionou o crime bárbaro com quatro vidas ceifadas e um banho de sangue que empestou a casa? A polícia consegue logo prender os dois criminosos, e do planeamento inicial de um roubo na propriedade, quando acreditavam que havia uma soma considerável em dinheiro, chegam à triste conclusão de que haviam apenas alguns dólares, e esse desfecho surreal leva-nos a refletir o quanto vale a vida.

Casos e mais casos de planos frustrados permeiam a história de trágicos assassinatos e a opinião pública norte-americana ficou chocada com este detalhe. Dentre os jornalistas, Truman Capote. Embora não fosse a sua área de atuação, certamente se adequasse mais ao jornalismo de “fofocas” e celebridades, Capote dignou-se a ir a Holcomb investigar os bastidores para uma reportagem e, desde o início, visualizou que escreveria um livro sobre.

Imaginem um gay afetado tentando entrevistar os moradores de uma cidade rural super conservadora e tradicional. De referir que o escritor possuía uma fala arrastada e quase cantada. Ele mesmo se apercebeu disso e convidou um anteparo, ninguém menos que Harper Lee (1926-2016), autora do icónico “O Sol é Para Todos“. Adendo: senhor editor do Barrete, verifique se eu já enviei resenha deste clássico de Lee! Mas voltando: o jornalista escritor fica a saber da família dos Clutter. Fazendeiros plantadores de trigo, com dois filhos adolescentes em casa, sendo uma rapariga muito especial. Um modo de vida simples, como não poderia deixar de ser, e não devido ao facto de terem morrido, mas a população gostava bastante desta família.

A escritora norte-americana Harper Lee

Capote vai colhendo as entrevistas e confiando na memória, não anota nem regista nada no gravador. Afirmava que apenas conversando com as pessoas, estas se sentiriam menos pressionadas, como se estivessem a ser entrevistadas (embora fosse isso o que acontecia) e ficavam mais à vontade. O método é arriscado, mas está aí o diferencial de Capote. Confiando na memória a partir do momento em que passava a redigir a trama, este acaba romanceando muitas das passagens cruas e a elegância e o lirismo sobressaem-se em descrições pormenorizadas que por vezes nos esquecemos do crime bárbaro.

Resumindo, trata-se de uma peça literária de relevado valor e contraditoriamente, narrando na 3.ª pessoa, o autor megalomaníaco não se coloca na história. Para terem uma ideia do lirismo na sua forma de compor, leiam o parágrafo inicial deste romance, cito:

A pequena cidade de Holcomb está situada nas altas planícies de trigo do oeste do Kansas, área desolada que os outros habitantes do Estado chamam de ‘lá longe’. A cento e doze quilómetros a leste da fronteira com o Colorado, o campo, com o seu duro céu azul e o ar límpido do deserto, possui uma atmosfera mais de ‘faroeste’ que de ‘meio-oeste’.

O sotaque local tem uma farpa do nasal das planícies, uma nasalidade de vaqueiros, e os homens, muitos deles, usam as calças justas das fronteiras, chapéus Stetson, e botas de salto alto e bico fino. A terra é plana e as paisagens assustadoramente vastas. Cavalos, manadas de gado, um amontoado branco de silos erguendo-se graciosos como templos gregos são vistos pelo viajante muito antes de a eles chegar.

O escritor Truman Capote

Lendo o livro, as sensações são percetíveis, como as dos campos de trigo sendo levados a bailar pelo vento que acalenta. Essas construções são atenuantes da investigação do crime em si, sendo que após detalhar os membros vitimados, ele parte para entrevistar o delegado e consegue ter acesso aos dois assassinos. Sedutor, bom conversador e interessado na história deles, ganha-lhes a confiança sobre o pretexto de que desejava apresentar ao mundo duas pessoas que haviam saído dos trilhos, mas quem sabe este livro em gestação não poderia, quando publicado, atenuar as suas penas: proposta fatal e inicial para a pena de morte.

A teia de relações do entrevistador e entrevistados é incrível, pois ele vai ganhando confiança e aproxima-se demasiado de um deles, afetando e sendo afetado por ele. Muito se falou à época que os dois criminosos eram homossexuais e que Truman se havia apaixonado ou mesmo tido um caso a partir do momento em que os conheceu.

O certo é que ele não deixa isso transparecer no seu livro, que demorou cinco longos anos para vir ao mundo, o facto de serem gays. Certamente, pois não desejava dissabores com o público e crítica muito conservadores nos Estados Unidos. Esse longo tempo de gestação da obra deve-se também à espera do final das apelações e se as sentenças de pena de morte se concretizariam. Deixo em aberto para que vocês leiam e entrem neste universo sombrio e macabro.

Transposto para o cinema, acerca da elaboração do clássico, “Capote“, do realizador Bennett Miller, de 2005, rendeu o Óscar de Melhor Ator ao formidável Philip Seymour Hoffman, que com os seus trejeitos e modo de ajustar os óculos, incorporou muito bem o protagonista. Impagável também a cena no vagão do comboio onde um camareiro lhe solicitaria um autógrafo, dado ser ele uma celebridade, mas sendo desmascarado pela amiga que se tornou ex-amiga Lee.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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