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Porque A Arte Somos Nós

É natural que estas camadas profundas da nossa estratificação étnica se sublevassem numa anticlinal extraordinária – António Conselheiro.

A imagem é corretíssima.

Da mesma forma que o geólogo interpreta a inclinação e a orientação dos estratos truncados de antigas formações esboça o perfil de uma montanha extinta, o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou. Isolado, ele se perde na turba dos nevróticos vulgares. Pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva. Mas posto em função do meio, assombra. É uma diátese, e é uma síntese. As fases singulares da sua existência não são, talvez, períodos sucessivos de uma moléstia grave, mas são, com certeza, resumo abreviado dos aspetos predominantes de um mal social gravíssimo.

Por isto o infeliz, destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a história como poderia ter ido para o hospício. Porque ele para o historiador não foi um desequilibrado. Apareceu como integração de caracteres diferenciais – vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multidão, mas enérgicos e definidos, quando resumidos numa individualidade.

Todas as crenças ingénuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. O temperamento mais impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes, a princípio numa quase passividade pela própria recetividade mórbida do espírito torturado de reveses, e elas refluíram, depois, mais fortemente, sobre o próprio meio de onde haviam partido, partindo da sua consciência delirante.

Trecho do livro

“Os Sertões” (Círculo do Livro, 496 páginas) de Euclides da Cunha (1866-1909) é um marco da literatura luso-brasileira. Com um português rebuscado, desfilando conhecimentos geográficos, históricos, topográficos, geológicos, botânicos e de engenharia, e sendo no fundo uma investigação histórica em forma de reportagem, Euclides foi jornalista enviado in loco para o conflito, trabalhando para o jornal O Estado de S. Paulo, o épico narra a Guerra de Canudos, que teve como mote as expedições do Exército Brasileiro ao interior da Bahia (uma das províncias do Brasil) para sufocar a insurreição levantada pelo místico António Conselheiro (cujo perfil abre o artigo).

O escritor brasileiro Euclides da Cunha

Lendo este livro, atentei para o básico: não é apenas o estrangeiro que não conhece o Brasil, ficando muitos destes fixados no estereótipo do brasileiro como sendo aquele que se diverte na praia, assiste às mulatas no carnaval e gosta de futebol, como se morássemos todos no Rio de Janeiro. Vá lá o estrangeiro ter este olhar sobre nós, é até compreensível. O que destaco neste país continental é o próprio desconhecimento que nós brasileiros temos da nossa terra. Fazendo o mea culpa, já visitei alguns países na Europa e metade da América do Sul, mas nunca fui visitar mais amiúde o Nordeste do Brasil.

E é neste local que se desenvolve este livro reportagem, classificado como romance clássico, de Euclides. Desconfio até de que muitos nordestinos do litoral desconheçam as províncias mais a fundo, e embrenhando pelo interior e defrontando-se com a seca e as condições precárias de subsistência, se até hoje esse contraste se verifica, imaginem há um século e duas décadas atrás.

Nessa terra de ninguém, onde a miséria fez pacto com a resignação, um povo sofrido sabia pouco das coisas que se passavam na capital federal (Rio de Janeiro à época) e nos primeiros anos da Proclamação da República (1889), e numa determinada região, Monte Belo, foram atraídas pela perambulação de um falso milagreiro, um indivíduo ignorante e fanático que proclamava a vinda de Deus à terra, sentindo-se o próprio enviado. Com uma túnica azul em trapos e sandálias grosseiras, portando um cajado, com cabelos sujos e grandes, barba a la Jesus, perambulava e arregimentava seguidores, gente tão estúpida e pobre quanto ele.

Se Conselheiro pregava o Reino de Deus, o governo recém promovido queria tirar todo aquele ranço de monarquia e, visando modernizar o Estado, precisava de saber do todo da população e a certa altura coincidiram com a cobrança de impostos também naquelas terras áridas do sertão nordestino. Visto inicialmente como um “zé ninguém”, Conselheiro começou a incomodar a partir do momento em que estacou o seu cajado numa terra no meio do nada e ali tentou criar a sua cidade. Canudos nasceu assim. Cidade mística que arregimentou pobres e jagunços (espécie de bandoleiros que arriscavam a própria vida por qualquer coisa), o certo é que as pregações do místico começaram a insuflar.

Canudos no ano de 1897. Fotografia tirada por Flávio de Barros, fotógrafo do Exército / Wikipédia

O governo estadual chegou a acreditar que um mero destacamento de soldados seria suficiente para vencer o bando de fanáticos, mas na prática não foi isso o que se verificou. Solicitaram auxílio ao governo federal e este empreendeu pelotões e comandos inteiros, tendo-se verificado algo incrivelmente não estratégico.

Fazendo um anexo, do mesmo modo que União Soviética e agora mais recentemente, os Estados Unidos, saíram do Afeganistão com o rabo entre as pernas, perdendo a guerra por não terem conhecimento da geografia local, o governo brasileiro deu-se muito mal em Canudos, pois, combatendo na casa do adversário, tiveram que se bater com jagunços acostumados àquela área e àquele clima, e nessa confrontação de guerra contra guerrilha, perderam-se bastante vidas entre os soldados enviados.

Uma guerra desproporcional, tanto em contingente de forças quanto em números de soldados, o certo é que no final apenas o facto de o Exército ter conseguido sitiar o amaldiçoado lugar, que tantas vidas fizera perder, sobretudo dos locais, e onde não havia nada para se conquistar a não ser o propósito último de levar o místico às barras da Justiça. Claro que isso não chegou a acontecer, pois ele foi um dos muitos anónimos que faleceram nessa guerra estúpida que manchou de sangue o início da nossa República. No conflito todo, que durou de novembro de 1896 a outubro do ano seguinte, estupidamente morreram 25 mil pessoas, sendo 20 mil civis.

Lendo “Os Sertões”, quero contar alguns bastidores. Levei 25 dias para o ler. Uma média de 20 páginas diárias. Pois a fonte e o tamanho de letra são pequenas e eu queria ir devagar para degustar esse calvário. À medida que lia, sentia-me a penetrar os sertões áridos, ficando em muitos momentos com a boca seca e vivenciando toda aquela angústia existencial. Apesar da viagem sofrida, no fim senti o dever de casa feito, conhecer um pouco melhor o meu país e todas as suas contradições.

Canudos significou um governo em luta contra o seu próprio povo, sendo este miserável e como pano de fundo a tola mistificação de gente ignorante que acreditou num Messias que, munido de um cajado, vinha anunciar a vinda de Deus para arregimentar toda aquela turba de retardados morais. Um livro chocante, que foi um sucesso da crítica aquando do seu lançamento, em 1902, e mostrou ao povo brasileiro que estes não conheciam a fundo o seu próprio país. Formidável!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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