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Porque A Arte Somos Nós

Era uma vez, há muito, muito tempo...”, é a forma clássica de como a Pixar escolhe começar “Onward”, em português “Bora Lá“. Uma decisão adequada, dado que o prestigiado estúdio de animação tem vindo a alimentar a alma das audiências por via da conjunção de qualidade com nostalgia. Mas esqueçam o espaço e as galáxias distantes. O filme realizado por Dan Scanlon imerge-nos num mundo alternativo, recheado de feitiços e seres fantásticos. Onde os mágicos são admirados na mesma medida com que Frodo e os restantes companheiros encaram Gandalf, em “O Senhor dos Anéis” (2001 – 2003).

No entanto, o advento de soluções mais práticas e cómodas foram deixando a magia de parte. Afinal de contas, não estava acessível a todos e dava uma trabalheira de evocar. Com o progresso, o galope dos cascos deu lugar aos automóveis e as asas das libelinhas e dos dragões foram substituídas por aviões. O encanto foi, assim, tomado pela preguiça e pelo ordinário. Na cidade de New Mushroomton, o quotidiano já pouco se distinguia da experiência do mundo de carne e osso do leitor. Exceto, claro, o facto de lá não existirem humanos – pelo menos que se conheçam.

É neste novo paradigma que conhecemos o elfo Ian Lightfoot (Tom Holland), que celebra o seu 16.º aniversário com a sua mãe viúva, Laurel (Julia Louis-Dreyfus), e o seu irmão mais velho, Barley (Chris Pratt). Ian nunca conhecera o seu pai, que morrera antes de ele nascer. Afetado pela lacuna paterna, Laurel entrega-lhe, para sua surpresa, uma prenda do seu pai, que estava prevista para aquele dia. Embrulhado num manto descansava um bastão de mago, assim como um cristal místico e um feitiço. Síncronos, têm o poder de ressuscitar o pai por um dia inteiro.

“Onward” (2020)

Tomado pela ansiedade, Barley, entusiasta do mundo antigo, tenta prontamente lançar o feitiço: sem efeito. Mais tarde, é Ian que revela ter mais aptidão para o sobrenatural, com o infeliz resultado de apenas os membros inferiores do seu pai terem sido conjurados. A sua inexperiência nos feitos mágicos fez com que o cristal se partisse, colocando os irmãos numa aventura em busca de outro cristal, artefacto raro nos dias que correm. Uma corrida contra o tempo repleta de boa disposição, desafios e crescimento pessoal.

Quer em termos centrais como periféricos, “Onward” tem uma palavra a dizer. As primeiras camadas revelam-se sem cortejo. Há uma clara preocupação com a preservação da História, quer em termos sociais como pessoais. Personificada na transformação cosmopolita do seu universo e no facto de ser necessário um cristal arcaico para Ian recuperar, temporariamente, o seu pai. Como um filho que vai ao Registo Civil para indagar informações de um progenitor que nunca conheceu. Sem a preservação dos documentos, como conhecemos o nosso passado?

“Onward” (2020)

A par desta consideração, os primeiros atos atendem às diferenças entre os irmãos: o primeiro, mais tímido e acanhado, o segundo, mais confiante e barulhento. Esta dinâmica, destilada numa narrativa engenhosa, oferece entretenimento e um par de gargalhadas. À primeira vista, parece esquecer-se de cocegar o coração, até que uma carta na manga, mais perto dos créditos finais, nutre a história com a emoção que até então fraquejava. Este afeto inesperado diferencia o filme de “Monstros: A Universidade” (2013), o último projeto de Dan Scanlon, que diverte sem comover.

Talvez por esta ser uma história bastante pessoal para Scanlon. Baseada na sua dinâmica familiar, o realizador assinou o argumento em parceria com Keith Bunin e Jason Headley. Um trio que mesmo não escrevendo os diálogos das próximas personagens sensação da Pixar, trabalhou um enredo que sabe como recompensar a audiência mais atenta. Pode esperar-se fraternidade, confiança e sacrifício, nesta caixinha de surpresas pintada com o encanto visual que os estúdios do candeeiro saltitante têm habituado.

Esta crítica é dedicada à minha irmã, que viu o filme comigo e de quem tanto gosto.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

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