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Quando li “Desonra”, confesso que não me atentei direito para o nome do seu autor. Foi melhor assim. À medida que lia, a história ia tomando conta de mim e no final fiquei com aquela sensação de ter levado um murro na boca do estômago. O livro de 2003 é excecional! Depois procurei saber sobre os bastidores da obra e do seu autor. O livro ganhou o maior prémio de Inglaterra, o Booker Prize, e o seu autor foi laureado com o Nobel de Literatura. Suspeito que esta condecoração se deu por ter escrito esta obra-prima, que na versão original se intitula de “Desgraça“, aliás, um título mais apropriado a meu ver.

Outro bastidor interessante é o facto de J. M. Coetzee ser sul-africano e quando vi o enredo tratar da Cidade do Cabo e do interior da África do Sul, isso encantou-me ainda mais. Sem mais demora, vamos conversar sobre o livro?

David Lurie é um professor universitário de literatura na Cidade do Cabo e envolve-se com uma aluna na casa dos 20 anos. Cinquentão, já amargura o peso da sua idade e de forma autocrítica, sabe que está a envelhecer. Este jogo de sedução quase cliché (a do professor com a sua jovem aluna) acarreta-lhe problemas e ele é denunciado, tendo que se retratar frente a um comité da universidade, contudo ele tem uma personalidade bastante arrogante para entender que algo aconteceu fora do padrão. Fica claro que foi assédio e não estupro.

O autor sul-africano J. M. Coetzee / The Telegraph

O certo é que o professor racionalista e humanista empreenderá uma viagem para esfriar a cabeça, aceitando de forma resignada o seu desligamento, por ora, dos seus compromissos profissionais. A reflexão que cabe aqui é a do cansaço e do peso da idade, de forma lúcida o professor-autor parece não comungar desse mito da eterna juventude. Sou prova viva de que, com um pouco menos de anos do personagem do livro, as pernas já cansam, as primeiras rugas aparecem, o cansaço surge, a beleza fica um pouco embaçada. Isso é facto.

Pois bem, ele vai passar uma temporada com a sua filha, que reside no campo e leva um tipo de vida mais natural, cuidando da sua fazenda e vivendo dos produtos que consome e do excedente que leva à feira para vender. Ela é homossexual e a sua companheira é uma veterinária que tem um trabalho com animais abandonados, sendo que todo aquele modo de vida rústico sempre contrapôs as opiniões de pai e filha. Ela está com os pés fincados na terra, cabe aqui uma crítica velada às cabeças de vento que povoam as nossas especulações metafísicas e, sendo o pai um protótipo disso, nada mais natural e compreensível que houvessem embates.

Até que uma fatalidade vem acometer pai e filha. Três homens negros assaltam o sítio e espancam David, trancando-o na casa-de-banho. Estupram a filha e esta acaba por engravidar na sequência deste ato de violência. Tendo que se encarar após tamanha desgraça, daí a minha opinião de que o título traduzido pela Editora brasileira Companhia das Letras, com as suas 248 páginas não ser lá muito apropriado, a pergunta que fica é sobre os próximos passos a serem dados. Vingança, vingança, vingança? Nada disso.

A obra de J. M. Coetzee foi adaptada ao cinema em 2008, por Steve Jacobs, com o papel principal a ser entregue a John Malkovich (Professor David Lurie). O filme chama-se “Desgraça”.

A filha surpreende pelo pacifismo e afirma que não irá denunciar ninguém e que não irá interromper a gravidez. Aqui entra uma reflexão histórica que casa bem com a metáfora bem trabalhada pelo autor, artifício genial que foi o diferencial para este livro ser tão bem destacado. Historicamente, a África do Sul saía de um apartheid e a segregação entre pretos e brancos, sendo os brancos a minoria descendente de ingleses e holandeses, fica subtendida ao domínio de uma classe por outra, sendo que a minoria explorava a grande maioria.

Nesta “Desgraça”, que parece uma vingança, ficamos a imaginar a violência contra a mulher justificada por um acerto de contas político. Claro que não estou a defender ponto de vista nenhum, e ao findar o livro fiquei com aquele sentimento humano de não me arvorar a ser o juiz da situação.

O acontecido fará o professor empreender uma viagem de retorno, amadurecido e pronto a rever alguns dos seus pontos de vista, reunindo-se com a mãe da aluna assediada e certamente sentindo uma certa redenção pelas suas atitudes outrora frias.

Um livro com muito sucesso por parte do público e da crítica, um farol a indicar outros trabalhos do escritor. Em breve, novas resenhas…

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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