OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

É assim que me sinto: como uma múmia. Retiraram com garras afiadas o meu coração, fígado, rins, vísceras e colocaram num cofre de madeira dourada. O cérebro foi derretido pelo ácido. Meu corpo mergulhado em água e sal, peixe desidratado. Preencheram a cavidade com serragem, ervas aromáticas e folhas dos meus livros de poemas. Enfaixaram-me com ataduras de linho branco e cola dura.

Colocaram-me num sarcófago, um relicário, o rosto coberto por uma máscara. Dentro da pirâmide húmida cercaram-me de joias, escaravelhos, amuletos e carros de guerra. O tempo perdeu o seu sentido, quando vislumbrei os milhões e milhões de anos da eternidade.

Quiseram me tornar mais um cadáver do vale, onde o sol se põe. Faltou-me oxigênio. Soprou sobre mim o vento seco de todas as fúrias. Foi aí que gritei: “_ Laços de morte me cingiram, torrentes de impiedade me arrastaram, mas, na angústia, invoco socorro e justiça.” Ele então ouviu a minha voz, do seu nariz saiu fumaça, da sua boca o fogo que consumiu aqueles que me perseguiram.

Saí correndo pelo mundo, soltando com as mãos os laços que me envolveram, os nós com que me apertaram: armadilhas de engano, notícias de peste, imagens chocantes, cartões de crédito, propagandas luminosas. Toda sorte de ansiedade e desespero. Quiseram, a qualquer custo, desviar-me da verdade, minar os meus sonhos e pensamentos, arrastar-me ao túmulo do chacal.

Que força tremenda é libertar-se das amarras. Atravessar em carne viva um novo portal.

Raquel Naveira

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