OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

A Itália na segunda metade do século XIX é uma colcha de retalhos. Um dos últimos países europeus a ser reunificado, a monarquia impera e cada região aplica as suas leis e regras. Revoluções pipocam a todo instante, e é neste cenário que se desenrola o filme “O Leopardo” (título em português), baseado no livro homónimo de Tomasi Di Lampedusa, que foi às telas sob a direção de Luchino Visconti, no ano de 1963, com Burt Lancaster, Romolo Valli, Terence Hill e a bela e estonteante Claudia Cardinale. O épico dura umas aprazíveis 3h06. Vamos passear pelo filme e pela história?

Na Sicília, o príncipe Don Fabrizio Salina (interpretado por Lancaster) percebe aos poucos que a burguesia está sobrepujando a monarquia e os seus valores passam a ser postos em xeque. Não é sem amargura que ele percebe que os novos tempos pressagiam o fim de valores aristocráticos que ele tanto preza. Casado e pai de sete filhos, reside num palácio gigantesco, sendo que os seus antepassados afirmavam que residir num palácio onde o sujeito não se perdesse nos seus cómodos, não era digno de se morar.

Burt Lancaster (Prince Don Fabrizio Salina)

Portanto, opulência é a característica por excelência daquele sítio, incrustado nas terras áridas da Sicília, num distrito de Palermo. Mas engana-se quem pensa que Fabrizio é um aristocrata politicamente correto. Nas suas conversas com o padre Pirroni (interpretado por Romolo Valli), justifica a amante em Palermo dizendo que a culpada de tudo era a sua própria mulher, que ao longo daquele tempo todo só o deixara ver o umbigo, o que prediz que o sexo era rápido e apenas procriador.

O padre tenta dissuadi-lo das “puladas de cerca” e quando alude ao amor, ouve a frase do confessor: “O amor significa um ano de fogo ardente e trinta de cinzas“. No meio dessa iconoclastia pessoal divertida, a região é invadida pelas tropas de Garibaldi que forma um exército de revolucionários e as ruas de Palermo são palcos de batalhas sangrentas. Quando perguntado por um sobrinho sobre as suas opiniões políticas, Fabrizio opina: “Tudo deve necessariamente mudar, para permanecer sempre a mesma coisa“.

As frases espirituosas do protagonista podem indicar um espírito que faz troça o tempo todo, mas não é bem assim. Muito pelo contrário, a sisudez e sentimento de não pertencimento mais a uma nova época caracterizam a sua personalidade. Embora arrastada algumas veze, a toalete do príncipe é mostrada com riqueza de detalhes, assim como o seu bem vestir, afinal, trata-se de um sujeito galanteador e bastante perfumado.

Como o enredo traz um mote dramático, vê-se as relações de classes e Tancredi (sobrinho de Fabrizio), interpretado por Alain Delon, simpatizante de Garibaldi, procura um casamento e nada mais surpreendente que se oficializasse o noivado com a bela Angelica Sedara, vivida por Cardinale. Ambos os atores representam o belo e são modelos estéticos exemplares, assim sendo, quantos nomes não foram colocados em filhos a partir desse facto, só para terem uma ideia, seria algo hoje como Brad Pitt e Angelina Jolie.

Alain Delon (Tancredi Falconeri) e Claudia Cardinale (Angelica Sedara / Bertiana)

Mas voltando: quando regressa de uma batalha, Tancredi tem que contornar uma saia justa com a sua prima, Concheta, que lhe tinha amor, e Fabrizio entende que o rapaz estaria melhor casado com a filha de um burguês endinheirado, pois tinha ambições políticas e sociais. Assim sendo, quem faz o pedido de noivado é ele mesmo, ao rico, mas simplório Don Calogero Sedara (interpretado por Paolo Stoppa), que a despeito da fortuna que possui, não tem gosto ao se vestir e é motivo de gozo por parte da família de Fabrizio.

À medida que o filme passa, somos tomados de assalto pela geografia do lugar e quase chegamos a sentir o pó da região. Tudo concentrado no palácio de Don Fabrizio, e tudo o que acontece são preparativos para as suntuosas festas e a beleza de Angelica que captura a atenção de todos, inclusive a de Fabrizio, que se vê ao espelho e percebe que perdeu o viço da mocidade. Não à toa, na parte final do livro/filme a festa é consagrada, num acontecimento que atravessa a noite.

Angelica quer dançar com o outrora excelente dançarino Fabrizio, e eles roubam a cena numa valsa que aponta para os excelentes passos do príncipe. Dali até o raiar do dia, quando se dá as despedidas, e a despeito de tanto glamour e requinte, Fabrizio intenta fazer uma caminhada solitária de regresso ao seu palácio, e pelas ruelas do distrito, depara-se com um gatinho e encerra-se a história em aporia, ou seja, transmite-se um enredo apresentando uma época, mas sem julgamentos ou lições morais.

“O Leopardo” é um filme muito bem dirigido, com fotografias e cenários sumptuosos, e não foi à toa que esteve indicado ao Óscar de Melhor Guarda-Roupa em 1964. Mais que merecido.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

Se queres que OBarrete continue ao mais alto nível e evolua para algo ainda maior, é a tua vez de poder participar com o pouco que seja. Clica aqui e junta-te à família!

IMDB

Rotten Tomatoes

One thought on ““The Leopard”: Uma obra clássica da literatura e do cinema

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading